domingo, 26 de dezembro de 2010

Para os meus amigos

Era o seu primeiro Natal . Escrevi para ela o pequeno texto que agora dedico também a todos os meus amigos que não desistiram de ser crianças. Feliz Natal!

Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, hás-de ler esta carta. Regressarás, então, à festa do teu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foste recebida no calor do afecto daqueles que te amam e, em ti, regressaram eles também ao seu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foram recebidos no calor do afecto daqueles que os amavam. Recordarás, então, a lareira, as filhós, os doces, os aromas, os sabores, os manjares, o presépio, a festa, o encontro. E abrirás os olhos ao sorriso que te há-de inundar a alma na memória que da festa e do encontro se há-de fazer. E sorrirás também quando o silêncio te encaminhar para o mais profundo e íntimo encontro de que és capaz: tu própria. Tu e as memórias que te habitam. Tu e os sonhos que te fazem. Descobrirás o arco-íris e com ele iluminarás as pontes que hás-de construir sobre os rios que hás-de atravessar. Nele viajarás até às estrelas e nelas hás-de morar com o sonho que te habitar. Descobrirás, então, que a estrela és tu e apenas em ti, no mais fundo, puro e íntimo silêncio de ti encontrarás tudo o resto: tudo o que pensaste e hás-de pensar, tudo o que fizeste e hás-de fazer, tudo o que disseste e hás-de dizer, tudo o que foste e hás-de ser. Viajarás, então, pura e leve, nas asas do tempo, tecidas de luz. E gostarás! Gostarás da infinita vertigem do voo íntimo e claro que te há-de revelar. E desejarás nunca quebrar o encanto que te ilumina o olhar, nunca deixar de voar em ti para além de ti. Descobrirás que a viagem se faz no silêncio íntimo do encontro com o sonho que nos habita, que toda a viagem se faz no regresso aos rostos que nos habitam o silêncio. Descobrirás o sol e a lua, a luz e a sombra. A tua sombra. Com ela viajarás sempre. Hás-de amá-la como amarás o rosto inquieto do amor que te há-de invadir. Com ela habitarás o silêncio e a memória, com ele vestirás os dias de arco-íris. E gostarás. E sorrirás aos rostos que te habitam o silêncio e neles te encontrarás. Neles descobrirás o outro e os valores que fazem da diferença a razão de ser homem e mulher: a liberdade, a solidariedade, a tolerância, o respeito. E serás feliz!

Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, há-de haver a festa do primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, o teu sonho será recebido no calor do afecto dos que o amam. E nós, que te amamos e contigo regressámos ao primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, fomos recebidos no calor do afecto dos que nos amavam, sorriremos encantados. Felizes. Como tu.

6 comentários:

Andrea de Godoy Neto disse...

Jad, nem vou comentar, porque uma carta que transborda amor e ternura assim, não carece ser comentada. Apenas apreciada e sentida de coração aberto.

Obrigada por compartilhar!

um grande abraço
e que teus dias, todos eles, sejam de caminhos abertos e muita vida!

Jorge Pimenta disse...

querido amigo,
a sensibilidade do homem reside na capacidade de ver o mundo através dos olhos de uma criança, independentemente da idade. oh, se assim fosse, a essência do natal cumprir-se-ia bem para lá do calendário...
belíssimo texto que nos toca de modo particular.
um abraço natalício!

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

jad disse...

Obrigado, Andrea.

Que os teus sonhos se cumpram no próximo e em todos os anos.

Abraço

jad disse...

Pois é, Jorge. As crianças são a esperança de Natal e quantas vezes nós, adultos, as impedimos de respirar no interior da casca da nossa indiferença adultícia?

Levamos pouco a sério o "deixai vir a mim as criancinhas" e vestimo-nos de pai-natal, velho e cansado de saco de prendas às costas, alheados da simbólica consumista que ele carrega. Esquecemo-nos em simultâneo do Natal do Menino, do natal em que se nasce todos os anos, em que voltamos a ser meninos, em que regressamos ao seio das vozes que nos envolveram nos "cueirinhos lavados na fontinha de Belém", como nos (en)cantavam na meninice.

É certo que a figura do Pai-Natal está associado originalmente a S. Nicolau, muito venerado na Europa do Norte. Mas a coca-cola vestiu-o da roupa que mais lhe convinha a ela. E pronto!

Grato pelo apreço pelo texto. Também gosto dele (o que evidentemente não acontece sempre com tudo o que escrevo)(:.
Excelentíssimo ano, Jorge.
Que o sonho se cumpra!

Abraço

jad disse...

Grato pela sua visita. Espero que goste e que volte amiúde. Será sempre bem-vindo.

Abraço.