quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Talvez poema

10
Despedida

Da tua poltrona de morte solta-se o grito impotente
no silêncio de dor e coragem com que fizeste tua condição
de mãe

Nasceste comigo no grito de amor e de prece
e cedo teus olhos de âmbar escureceram tristes
com a dor sem remédio
com que de negro vestiste
teu corpo curvado
envelhecido

Escapa-se-te o sonho!
Morres-te!
Restas-te na memória antiga dos sonhos que fizeste.

Desde sempre habitas meus passos andarilhos
da vida inquieta
que em ti nasceu.

Sobras-me na memória do tempo que em ti se fez
Sobras-me inteira no silêncio do arco-íris

Bento Amaral na minha escola

Bento Amaral esteve na minha escola no âmbito de uma actividade denominada "Encontro com". Esta actividade orienta-se para a promoção de "modelos positivos" junto dos alunos que possam, de algum modo, apresentar-se como alternativas aos modelos promovidos pelos media, sobretudo a TV e suas telenovelas.

Bento Amaral - 40 anos, casado, natural do Porto.
Engº Alimentar pela Escola de Biotecnologia da Universidade Católica
No 5º ano do curso estagiou no Instituto de Enologia de Bordéus.

Professor na Universidade Católica de Avaliação Sensorial em pós-graduações e mestrado de Enologia e Markting de Vinhos.

Colabora na Revista Blue Wine.

Chefe de provas do IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto), onde é Responsável pela Câmara de Provadores, que atribui as (DOC) Denominações de Origem dos vinhos produzidos na região do Douro.

Desporto

- Praticante de vela ligeira desde os 14 anos
- Vela adaptada desde 2001
- 2004 – Vice campeão mundial
- 2005 – Campeão mundial
- 2008 – Qualificou Portugal para Jogos Parolímpicos de Pequim - 9º

Condecorações

- Ordem do Infante (10 de Junho de 2008).

Falta um pormenor importante: Bento Amaral é tetraplégico há 15 anos, desde que em 1994 bateu com a cabeça na areia da praia quando fazia uma carreirinha mal calculada numa onda.
Falta outro pormenor: é casado desde 2007. Nessa cerimónia tão querida para ele, Bento Amaral abriu o baile com a mulher sentada no seu colo, ambos na cadeira de rodas que usa de manhã à noite.

(Hoje é a notícia, amanhã é a reflexão)

sábado, 14 de Novembro de 2009

1969 - 40 anos

Há 40 anos foi Space Oddity de Bowie
Começava a longa vida do "Camaleão"

Poema

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Do conhecer e do saber

"O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele."

A referência encontrei-a em http://filosofarpreciso.blogspot.com/.
Não é difícil perceber aqui uma das questões que alimenta a reflexão à volta da educação e do papel da escola no mundo marcado por uma tripla revolução, como Gardner afirma na entrevista que a revista Nova Escola traz na sua edição de Outubro: “ a globalização”, “a biológica” e “a digital”.
Qual o papel destinado à escola? Transmitir conhecimentos ou construir saberes? Formar gerações que adquirem conhecimentos que lhes permitirão dominar técnicas com as quais desempenharão trabalhos e funções de uma forma eficaz e eficiente, segundo modelos produtivos desligados das finalidades que lhes estão associadas ou contribuir com os saberes que a escola mobiliza na sua permanente actualização (mesmo com a reconhecida incapacidade pro-activa da escola e de actuar (quase) sempre em reacção) para a construção de saberes que envolvam as gerações que a frequentam na busca de soluções para os problemas que nos afectam como sujeitos de um mundo em inter-relação? A ecola deve formar técnicos, cidadãos ou técnicos-cidadãos?
A sociedade do saber que a escola persegue não implica uma umbilical ligação aos valores que nos fazem homens dignos?
Claro que sim!

Eis um pequeno excerto da entrevista acima referida. Para ler e pensar.

Howard Gardner, que se dedica a estudar a forma como o pensamento se organiza, balançou as bases da Educação ao defender, em 1984, que a inteligência não pode ser medida só pelo raciocínio lógico-matemático, geralmente o mais valorizado na escola. Segundo o psicólogo norte-americano, havia outros tipos de inteligência: musical, espacial, linguística, interpessoal, intrapessoal, corporal, naturalista e existencial. A Teoria das Inteligências Múltiplas atraiu a atenção dos professores, o que fez com que ele se aproximasse mais do mundo educacional.

Hoje, Gardner tem um novo foco de pensamento, organizado no que chama de cinco mentes para o futuro, em que a ética se destaca. "Não basta ao homem ser inteligente. Mais do que tudo, é preciso ter caráter", diz, citando o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882). E emenda: "O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele".

O livro [Cinco Mentes para o Futuro] aponta também habilidades associadas a virtudes morais.

GARDNER Uma delas envolve o respeito - e é mais fácil explicar a mente respeitosa do que alcançá-la. Ela começa com o reconhecimento de que cada ser humano é único e, por isso, tem crenças e valores diferentes. A questão é o que fazemos com essa conclusão. Nós podemos matar e discriminar os diferentes ou tentar entendê-los e cooperar com eles. Desde que nascem, os humanos percebem se vivem em um ambiente respeitoso. Observam como os pais se relacionam e tratam os filhos, como os mestres interagem com os colegas e com os estudantes e assim por diante. O respeito está na superfície.

Essa última habilidade se relaciona à ética, certo?

GARDNER Sim. No que se refere à ética, é necessário imaginar-se com múltiplos papéis: ser humano, profissional e cidadão do mundo. O que fazemos não afeta uma rua, mas o planeta. Temos de pensar nos nossos direitos, mas também nas responsabilidades. O mais difícil com relação à ética é fazer a coisa certa mesmo quando essa atitude não atende aos nossos interesses. Ao resumir esses dois últimos tipos de mente, eu diria que pessoas que têm atitudes éticas merecem respeito. O problema é que muitas vezes respeitamos alguém só pelo dinheiro ou pela fama. O mundo certamente seria melhor se dirigíssemos nosso respeito às pessoas extremamente éticas.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A euforia no portátil

Havia um trabalho em grupo para fazer. Organizados para dar continuidade ao trabalho já desenvolvido fora da escola abrem as mochilas e tiram o portátil.
Estamos numa escola de província. O acesso aos centros de informação é limitado pela distãncia e pelos raros, caros e difíceis transportes. A biblioteca escolar é uma sala com enciclopédias generalistas e pouco profundas mas poucos livros. O acesso à informação tem que fazer-se via internet. Nós sabêmo-lo e os alunos também.
De um momento para o outro há sete portáteis com ligação móvel à internet na sala de aula. Tudo acessível por um clique. E é aqui que começa a euforia e, receio-o, o desencanto. O acesso fácil à informação reforça a transparência das vidas fáceis que os conteúdos mediáticos juvenis definem e estimulam. Reforça, portanto, a dimensão identitária das crianças e adolescentes com o ideal de sucesso dos seus heróis.
Eles não o sabem mas nós sabêmo-lo: o sucesso ou a melhoria do aprender e do ensinar e a consequente melhor ou pior preparação para a escola e para a vida não depende das TIC, depende do uso inteligente do trabalho intelectual que se desenvolve no processo de apropriação da informação, venha ela por que via vier.
Não é a informação que nos forma, que nos faz o que somos. É a apropriação inteligente da informação. De nada serviria a informação se não soubéssemos o que fazer com ela, se dela não fizéssemos um exercício pessoal, reflectido, articulado, organizado, disciplinado, coerente, se dela não construíssemos um texto, quer dizer, um discurso que torne entendível o mundo que construímos. Um discurso pessoal, escrito, partilhável na leitura e interpretação que despoleta a sua inteligibilidade e comunicabilidade.
É importante não esquecer que apenas nos fazemos uns com os outros na comunicação e na linguagem com a qual e pela qual nos identificamos e somos. A promoção dessa dimensão comunicacional, enquanto actividade humana por excelência, apresenta-se, então, como um dever educativo. Pedagógico também. Assume, por conseguinte, um carácter ético.
Nestas circunstâncias, se não promovermos a comunicação interpessoal como processo de humanização e o texto escrito como exercício maior de intelecção do real, continuaremos ao lado do progresso, ao lado do sucesso, ao lado daquilo que nos garante o desenvolvimento pessoal, social, intelectual, mental de cada um e de todos. Só esse é durável.
O portátil é uma ferramenta eufórica. É fácil de usar e dá ao utilizador a sensação divinal de omnisciência e omnipotência: com um pequeno toque poderá saber tudo sem esforço. Este poder torna-o eufórico. E o caso não é para menos.
O livro também é uma ferramenta. Mas não é fácil, nem transparente, nem absoluto no saber que possibilita. São precisos muitos livros, muito esforço, muito estudo para saber.
Não é difícil perceber a euforia colada às TIC e descolada dos livros entre as crianças e adolescentes.
Mas, sabêmo-lo bem, o sucesso não está nas TIC, nem nos livros. O sucesso está no uso que deles fizermos. Aí se encontrará também o encanto ou o desencanto.
Aí se encontra também o exercício do dever pedagógico e educativo.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Talvez Poema

9. 
Jardim de Outono

Há uma flor
no jardim de Outono
ardendo no fogo nocturno
dos sonhos
dos homens
que guardam despertos
o tempo sem mácula
das roseiras em flor

Amam
Crêem
Vivem

Perseguem sua sombra
e vêem-se inteiros
na solidão da flor
perdendo as pétalas
no jardim de Outono

Estão sós

Aguardam o Inverno
em que as camélias florirão

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

A Música das músicas

Há 280 anos foi o encantamento na estreia por Bach em Leipzig,
Há 180 anos foi o re-encantammento na re-estreia por Mendelssohn em Berlim
Hoje somos nós a encantar-nos com a "música das músicas"

domingo, 25 de Outubro de 2009

O Factor Peter Pan na educação

Este texto tem por base um comentário feito para o Profavaliação (http://www.profblog.org/). Na discussão que se desenvolveu a partir do post de Ramiro Marques sobre ”o peso do factor X”, factor correspondendo à influência que a leitura de “Uma Aventura”, que acompanhou muitos dos professores com menos de 35 anos, poderá ter na aceitação da ministra da educação Isabel Alçada por parte dos professores, Wegie, a certa altura coloca a seguinte questão: “ A Geração X também é conhecida por Geração Peter Pan. Poderemos falar então de um factor Peter Pan?” O que se segue é a minha resposta a essa questão.

Penso que sim, que há um factor (ou complexo) Peter Pan na educação e que se prende com dois ou três aspectos que me parecem acompanhar a actividade docente:

1. Há como que uma interrupção do devir temporal no facto de todos os anos trabalharmos com alunos que têm sempre 5, 7, 12, 15, 20, 25 anos. Mesmo sendo outros, a idade é a mesma. Claro que, quando nos aparecem mais tarde como colegas ou os encontramos noutras funções, descobrimos que estão mais velhos e nós, enfim, com sobressalto, acabamos por reconhecer que "já passaram uns anitos". Velhos é que não!

2. Temos um medo terrífico da nossa sombra que, evidentemente, procuramos encerrar num qualquer sítio para que não nos atormente. São as dúvidas, a imponderabilidade do que nos escapa ou, simplesmente, questiona as certezas que nos iluminam. Não faltam exemplos [a ilustrar este medo de duvidar, este medo de pôr permanentemente em dúvida as certezas em que fundamos os saberes que organizam o nosso modo de ser, pensar, dizer e fazer. Este medo, enfim, de que a sombra nos anteceda e nos escape].

3. Não desejaremos viver eternamente, como professores, na "Terra do Nunca", onde o "Capitão Gancho" não possa de modo algum atingir-nos? E isso não é um desejo que pretende perpetuar um estado de graça que nos permitisse continuarmos a voar? Que nos permitisse continuar a sonhar e a viver no sonho?

Todos sabemos que não crescemos matando Peter Pan.