sábado, 5 de junho de 2010

Autonomia e Projecto

1. Autonomia da escola

Desde as pombalinas expulsão dos jesuítas, a Directoria Geral de Estudos (ambas de 1759) e a Real Mesa Censória (1771) sempre o Estado em Portugal procurou, de uma forma mais ou menos formal e explícita, controlar a educação e o ensino. Para isso, foi criando estruturas de fiscalização e de controlo e, sobretudo, produzindo normas legais que sustentassem essa sua vocação controladora. Dito de outro modo: o Estado, ciente do poder que o saber representa, foi criando condições de controlo do saber de modo que dele pudesse dispor no seu exercício de domínio .

Mesmo no pós-25 de Abril, na democracia institucionalizada, esse desejo de manter o saber sob controlo continuou a alimentar a produção normativa e normalizadora .

É, de facto, a preocupação normalizadora e, por conseguinte, universalizadora e uniformizadora (Foucault, 1975) e disciplinadora (Gil, 1979) que norteia a estruturação do ensino e da educação que se fazem na escola. Por isso, apesar da liberdade e a autonomia constituírem valores referenciais da Constituição da República, foi preciso esperar três anos após a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86, de 14 de Outubro), onde eram já invocados níveis de participação de todos os implicados no processo educativo e de interligação com a comunidade, bem como, nos seus artigos 2º e 3º, era definida a organização do sistema educativo segundo os princípios da democraticidade e participação “através da adopção de estruturas e processos participativos na definição da política educativa, na administração e gestão do sistema escolar e na experiência pedagógica quotidiana, em que se integram todos os intervenientes no processo educativo, em especial os alunos, os docentes e as famílias” (artº 3º, alínea l).

Com efeito, é com o decreto-lei nº 43/89, de 3 de Fevereiro que se inicia o processo legislativo com que se pretende instituir e institucionalizar a autonomia das escolas. Está aberto o caminho. Falta percorrê-lo. Melhor: falta fazê-lo. E, para fazê-lo, o Estado produz normas, com as quais organiza e normaliza o processo instaurador da autonomia. Vão neste sentido o decreto-lei nº 115/98, de 4 de Maio e, dez anos mais tarde, o decreto-lei nº 75/2008, de 22 de Abril, que o actualiza e revoga. Com estes normativos temos a “autonomia decretada” (Barroso). Falta, contudo, construí-la. É que, como Guilherme de Oliveira Martins sintetiza (2006: 49) “dotar as escolas de uma autonomia autêntica significa contribuir para que a liderança, o projecto educativo, a comunidade escolar e a qualidade se afirmem como indutores de melhores aprendizagens, de melhor desenvolvimento pessoal e social e de mais coesão”. Com efeito, “dotar as escolas de uma autonomia autêntica” supõe que é igualmente possível uma autonomia não autêntica. Ora, esta dupla possibilidade configura um plano de autonomia que João Barroso designa como “autonomia decretada” (o plano “da definição política e do ordenamento jurídico e administrativo sobre as atribuições, competências e modos de governo das escolas” (2006: 23). É a “dotação” da autonomia das escolas por parte da tutela e corresponde, em larga medida à descentralização. Configura igualmente o plano que Barroso chama de “autonomia construída” (o plano “das dinâmicas sociais que em cada organização e para lá das determinantes político-administrativas produzem formas de regulação autónoma” (Ibidem). É a autonomia “autêntica”.

A difícil autenticidade da autonomia das escolas, sempre amarrada às limitações impostas pelo receio da tutela perder algum poder, por pequeno que seja, assemelha-se à história daquela criança que, de mochila às costas, vai andando à volta do bairro onde vive com os pais sem nunca atravessar a rua. O polícia, intrigado com o estranho comportamento da criança, aproxima-se e pergunta-lhe o que se passa. A criança com ar decidido esclarece: “sabe, senhor guarda, eu fugi de casa mas o meu pai proibiu-me de atravessar a rua”. Autónomo na decisão, preso na execução!

Atravessar a rua comporta riscos. Riscos para quem atravessa, riscos para quem, podendo impedir, permite tal travessia. Riscos que, na escola, é necessário e desejável correr se se quiser escapar à monótona rotina da estabilidade cimentada em normativos desejosos de tudo organizar e normalizar, típicos da racionalidade burocrática, receosos da inovação e incapazes de responder adequada e oportunamente ao imprevisto e à mudança. Neste sentido, assumir riscos implica o reconhecimento dos limites próprios e circunstanciais em que se desenham objectivos e projectos, a afirmação do desejo de superação desses limites e a crença em que se é capaz de consegui-lo. Implica, igualmente, que a tutela confie na capacidade mobilizadora das escolas com vista à consecução das finalidades e objectivos que, no dizer de Barroso (idem: 44) compete à escola pública salvaguardar: “o pleno direito à educação e o acesso a uma cultura comum, para todas as crianças e jovens, em condições de equidade, de igualdade de oportunidades e de justiça social”.

É na salvaguarda destes propósitos que se joga o equilíbrio necessário e desejável entre o Estado, que identifica, promove e tutela a “cultura comum” e as “condições de equidade, de igualdade de oportunidades e de justiça social” e as escolas que operacionalizam esses princípios e desígnios no contexto e circunstâncias em que a educação se desenvolve.

A autonomia das escolas constrói-se, pois, na inter-relação entre os sujeitos, as entidades e organismos envolvidos no processo educacional, que se orienta para a promoção da cidadania, que se faz no crescimento pessoal, mental e social daqueles que são a sua razão de ser: os alunos. A eles se destina a escola. Mas não são eles quem a define, como não são eles os autores da sua própria formação, nem são eles a determinar os princípios, as finalidades, os níveis e os saberes que suportam a sua formação e crescimento pleno.

Os alunos, crianças e jovens, não nascem crescidos. Fazem-se no confronto, simultaneamente mimético, referencial, reverencial e rebelde, com os adultos, que lhes servem de modelo -uns- e/ou de anti-modelo -outros. De uma forma ou de outra, é com eles e/ou contra eles que as crianças e jovens adolescentes se formam. Daí esta dificuldade essencial da educação: como conciliar a autonomia e liberdade necessárias à descoberta, como condição fundamental da aprendizagem e do crescimento pleno, equilibrado e harmonioso, com a autoridade, indispensável ao equilíbrio social e, acima de tudo, à afirmação de saberes e valores que nos identificam como cultura, nação ou civilização?

Do mesmo modo que não é a criança a escolher o remédio (“pharmakon”) com que tratar a gripe, nem é ela quem decide se deve ou não tomá-lo, também não lhe compete escolher o que deve aprender e/ou se deve ou não aprendê-lo. Não lhe compete, pois, escolher o “pharmakon” para a alma (Platão, Fedro). São os adultos quem escolhe e decide o que ensinar e o que aprender. Compete, pois, aos adultos transmitir os saberes e valores, reconhecidos essenciais ao nosso percurso colectivo, social e humano. São as crianças e adolescentes quem aprende os saberes e valores indispensáveis ao seu crescimento até à adultez. Chegados aqui serão eles a ensinar e a transmitir saberes e valores às crianças e adolescentes que serão adultos, que transmitirão..., que aprenderão... que transmitirão... que aprenderão...

Bibliografia referenciada

AAVV 2006 A autonomia das escolas, Lisboa, F. C. Gulbenkian
BARROSO, João (2006) “A autonomia das escolas: retórica, instrumento e modo de regulação da acção política”, in AAVV (2006) A autonomia das escolas, Lisboa, F.C.Gulbenkian, pp 23-48
BARROSO, João (2004) “A autonomia das escolas: uma ficção necessária” in Revista Portuguesa de Educação, 2004, 17(2), pp 49-83
CARVALHO, Adalberto (1994) Utopia e educação, Porto, Porto Ed.
CARVALHO, Adalberto et alt (1993) A construção do projecto de escola, Porto, Porto ed
CARVALHO, Rómulo (1986) História do Ensino em Portugal, Lisboa, F. C. Gulbenkian,
DAMAS, José A (1997) A Educação como comunicação normativa, Penafiel, ISPP
GOMES, Joaquim F. (1984) Estudos de História e de Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina
LIMA, Licínio C. (1992) A escola como organização e a participação na
organização escolar, Braga, Un. Minho,
STEINER, G., LADJALI, C (2004) Elogio da Transmissão, Lisboa, D. Quixote
TORGAL, Luis R. (1993) "A instrução Pública" in História de Portugal, Quinto Volume, 609-652, Lisboa, Círculo de Leitores

Regresso à escola

Porque está em análise o PEE da escola onde estou a ensinar, porque suponho que outras escolas estejam a fazer o mesmo e porque confio na profiquidade da discussão reflexiva e comunicacional, pareceu-me valer a pena publicar um texto que escrevi como ponto de partida para a reflexão numa aula de uma disciplina que me cabia dinamizar. A disciplina era “Projectos Educativos”, o tema geral que lhe quis imprimir era “O Projecto entre a Tradição e a Utopia”. O título do texto é “A autonomia e o projecto sob o signo da diferença”.

Apresento-o dividido em três partes:

1. Autonomia da escola
2. Ensinar e aprender
3. Projecto e diferença.

Para melhor identificação das referências bibliográficas apresentarei no fim de cada parte a bibliografia total referenciada e só a referenciada. Como sempre, a lista bibliográfica dos documentos que escrevo limita-se àquela que é referenciada no texto. Ficam de fora todos os livros, artigos, filmes, viagens, encontros, conversas, discos, alunos, professores que me ajudaram a pensar a educação como a penso e que não sejam referenciados no texto.

Está aberta a discussão.
Sejam bem-vindos!

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi After the Gold Rush de Neil Young e Don’t let it bring you down.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Recomendo também

O também justifica-se porque sigo o exemplo de Graza no seu Arroios.
São dois textos que nos atiram contra o espelho da nossa desgraça. E é bom que não desviemos o olhar.

Boa leitura!
Mentiram-nos este tempo todo? de Tacci
Um parlamento rico num país cada vez mais pobre. de Alexandre Castro

Nota: alterei a apresentação por me parecer mais claro assim. Bem sei que  estarão todos a sorrir com o "é óbvio". Pois.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Talvez Poema

26.

Invadiste-me
a alma
com a tua ausência

Cobriste-me
o olhar
com a noite sombria
dos dias obscuros
em que te não via

Habitas-me
o corpo
vazio de gestos
calcando a sombra
dos passos incertos
condenados
num requiem sem remédio.

Dizes-me
ao ouvido
segredos da vida que não viveste
dos sonhos que não inventaste
no tempo da tua ausência

Escuto-te
o olhar
na voz que mora em cada célula
da memória que me percorre
e deixo-me possuir pelos rios de luz
que brotam das noites claras
em que nos abençoávamos
no silêncio sem mácula dos sonhos
que vivíamos

Falas-me
ao ouvido
nas noites de tempestade
em que os fantasmas acordam desesperados
e me atormentam os sonhos
com a tua ausência.

Escuto-te
e sorrio
aninhado no regaço da tua presença.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Le temps des cerises

Tacci lembrou a canção do tempo da Comuna de Paris e se transformou num hino de amor. No tempo das cerejas.

domingo, 30 de maio de 2010

Talvez Poema

25. O tempo da cereja

Nasceram-me arco-íris no olhar
o mundo enfeitou-se de borboletas
deliciado com a transparente leveza
do sorriso com que me recebeste
entre alfazema e alecrim
com que perfumas o canto encantado
do chapim no carvalho do teu jardim.

Era o tempo da cereja

Os corpos douravam-se no trigo
e amavam-se desesperados no luar
com que vestíamos
o silêncio de sonhos
que só os grilos ouviam
e confirmavam no coro
desenfreado do seu grigriar.

E nós víamo-nos inteiros
nas palavras que nos dizíamos
no olhar que habitávamos

e éramos felizes
sem mágoa e sem mácula
nas promessas que nos fazíamos

No tempo da cereja.

terça-feira, 25 de maio de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi o fim do grupo mais influente na música pop,
I me mine o tema de Harrison no álbum derradeiro.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Talvez Poema

24.
De todas as vozes
talvez sejam os poetas
quem melhor diz
o sonho que nos faz

Talvez os profetas sejam poetas também
talvez os filósofos os invejem
e no fundo da eternidade do pensar
busquem a palavra que só os poetas dizem

Talvez o silêncio
que a voz do poeta habita
seja na imatura contingência
da palavra
o destino incerto
do sentido
em que os alquimistas do espírito
mergulham encantados
e afogam-se distraídos
nas cores
do arco-íris
com que inventam
o amor.

Talvez.
(E não nos livramos da herança da esfinge)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Justiça chegou tarde mas...chegou

Eis os provérbios em conflito:
"Quem espera desespera" ou "Quem espera sempre alcança"?

Eis a notícia:
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação do pai de uma aluna da Escola Secundária Anselmo de Andrade, em Almada, a pagar uma indemnização de 10 mil euros a uma professora, por injúrias.

Os factos remontam a 7 de março de 2001, quando, numa reunião naquela escola, o encarregado de educação apelidou a professora de História da Arte e Oficina de Artes de "mentirosa", "bandalho", "aberração para o ensino" e "incompetente".

A reunião fora solicitada pelo encarregado de educação, alegadamente para obter esclarecimentos acerca das muitas faltas da professora. Num trimestre, a docente faltara onze vezes por ter fraturado uma perna.

Além daqueles insultos, o pai acusou ainda a professora de falta de profissionalismo, de "mandar bocas" à filha, de terminar as aulas "10 minutos antes do toque e pedir aos alunos para dizerem aos funcionários que estavam a sair de um teste" e de na véspera dos testes dizer aos alunos "ipsis verbis" a matéria que iria sair.

Aconselhou ainda a professora a procurar tratamento psiquiátrico "urgente".

A professora, com 20 anos de profissão, pôs uma queixa-crime em tribunal, acabando o encarregado de educação por ser condenado pelo crime de injúria agravada.

A docente avançou também com uma ação cível, pedindo uma indemnização de quase 19 mil euros por danos patrimoniais e de 15 mil por danos não patrimoniais.

O tribunal decidiu fixar a indemnização em 10 mil euros, mas o arguido recorreu, alegando que as expressões foram proferidas por "um pai preocupado e protetor", num contexto de "nervosismo e tensão".

Alegou ainda que "não era previsível que as suas palavras desencadeassem um processo contínuo de sofrimento, stress e tristeza além do sentimento de desvalorização pessoal e da dignidade e reputação" da professora.

Defendeu igualmente que as consequências das suas palavras para a professora "devem mais ser consideradas como incómodos ou contrariedades do que verdadeiros danos".

Mas o tribunal manteve a condenação ao pagamento de 10 mil euros, considerando que a professora, face às "graves ofensas" de que foi alvo, ficou afetada na sua dignidade e reputação, o que lhe veio a causar um "rol de enfermidades", dele resultando "um quadro clínico de acidente vascular cerebral, acompanhado de síndrome depressivo grave, com oclusão da vista esquerda, com risco de cegueira".

O STJ considera mesmo que a indemnização de 10 mil euros "é um nada", já que "a dor de alma é, sem receios de exageros, incomensurável".


***Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico***
Daqui

sábado, 8 de maio de 2010

Bom dia com Aniversário

Aniversário de Eugène-Henri-Paul Gauguin (Paris, 7 /6/ 1848 - Ilhas Marquesas, 8/5/1903)


Bom dia com Vincent (Van Gogh) e Starry, starry night (Don Maclean)


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Poema

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke
 O Livro das Imagens
Tradução de Maria João Costa Pereira
daqui

Aniversário

Brahams 3ª sinfonia no dia do aniversário seu nascimento (7/ 5/ 1833-3/ 4/ 1897)


1970 - 40 anos

Regresso a Bridge over troubled waters e The Only Living Boy in New York.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Talvez Poema

23
Nascimento

Nascemos da memória ancestral
do mundo
habitação encantada
da história
que nos ata
à sombra
com que perseguimos
nossos passos

Regresso

Boa noite a todos.

Estou de regresso ao convívio dos viajantes pelas palavras e pelas imagens que circulam pela blogosfera e, com referência especial, mandam os princípios elementares da deferência, a todos os que se sentiram admirados, intrigados, defraudados, os que se interrogaram, se importunaram, se preocuparam com o destino do Nós e do seu desaparecido escrivão.

Pois bem, por razões que se prendem com os frágeis cordéis que nos prendem à vida e ao seu lado são e também, temos de admiti-lo, por incapacidade de conciliar afazeres inadiáveis com a escrita de que se alimenta o Nós obriguei-me a esta ausência indesejada e difícil.

Portanto, caríssimos amigos e visitantes, bem-vindos ao convívio de quem vos espera sempre e agradece a vossa visita e, sobretudo, a disputa e o comentário.

Bem-vindos.

domingo, 4 de abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sexta-Feira da Paixão III

Perante o sublime apenas o silêncio não é excedentário.

Sexta-Feira da Paixão II

A dúvida a dor a mágoa o amor a solidão
a amizade a dádiva o sonho a promessa o pão
o tempo a lua a pressa o poder a cobiça a traição
a esperança a palavra o medo a fome o mar o ar a terra
o sol o sul a sombra a fome a roda a morte a guerra
a paixão o amor a flor a oferta a luz o perdão
a dúvida a dor a mágoa o amor a solidão

Sexta-Feira da Paixão

Sexta-Feira Santa

A Sexta-feira Santa, ou 'Sexta-feira da Paixão', é a Sexta-feira antes do Domingo de Páscoa. É a data em que os cristãos lembram o julgamento, paixão, crucificação, morte e sepultura de Jesus Cristo, através de diversos ritos religiosos.

Segundo a tradição cristã, a ressurreição de Cristo aconteceu no domingo seguinte ao dia 14 de Nisã, no calendário hebraico. A mesma tradição refere ser esse o terceiro dia desde a morte. Assim, contando a partir do domingo, e sabendo que o costume judaico, tal como o romano, contava o primeiro e o último dia, chega-se à sexta-feira como dia da morte de Cristo.

A Sexta-feira Santa é um feriado móvel que serve de referência para outras datas. É calculado como sendo a primeira Sexta-feira de lua cheia após o equinócio de outono no hemisfério sul ou o equinócio de primavera no hemisfério norte, podendo ocorrer entre 22 de março e 25 de abril.

Fonte

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Educar é normalizar?

Este texto resulta da reflexão despoletada pelo muito interessante comentário que o Elenáro fez ao meu post do dia 23 de Março sobre Indisciplina(s).

Elenáro dizia, e eu concordo, que “é preciso criar algo que seja superior a isto [ao subjectivismo e ao relativismo dos valores]. Não precisam de ser os supostos valores universais no sentido que sejam comuns a todos. É preciso antes, uma situação de compromisso. Uma série de valores que possam ser aceites por todos sabendo que nem todos ganharam na sua "normalização".

Contudo, com o “compromisso”, regressam, creio eu, os valores que, para mim, são fundantes do nosso modo humano de ser: a liberdade, a tolerância, a solidariedade e o respeito. E regressam com eles as questões que nos obrigam a pensar o equilíbrio possível entre os interesses individuais - subjectivos ou não – e os interesses colectivos.

Há muitas perspectivas a tratar esta permanente fonte de conflitos, egoísmos e altruísmos, também. De uma forma ou de outra, é sempre o modo como entendemos o outro que determina o modo como entendemos os valores e a sua consequente implementação.

Centrando-nos numa perspectiva comunicacional (aquela em que me coloco) o outro é sempre a condição da comunicação. Donde, não há falante sem ouvinte, não há comunicação sem partilha, sem pôr em comum (etimologia de comunicar). O outro é, assim, a fundamentação ética da comunicação e, como a comunicação implica acção, como os pragmáticos e Habermas mostraram, o outro torna-se o fundamento da dimensão ética do agir. Consequentemente, as normas éticas, tornados deveres, apenas têm sentido se tornarem possível o justo equilíbrio entre o eu e o outro, entre os meus interesses subjectivos e os interesses do outro. Dito de outro modo: o que torna a minha acção digna são justamente os princípios, as normas, os valores, tornados deveres, que tornam igualmente digna a acção do outro.

Neste sentido, tanto a comunicação como a acção que lhe é própria são sempre intersubjectivas.

Como sabemos, os princípios, as normas, os valores não nascem connosco, não são inatos. São aprendidos. São, pois, ensinados e aprendidos de geração em geração. O outro, que está na sua origem, é, por conseguinte, a razão de ser desses princípios, normas e valores e da educação em que se ensinam e aprendem.

Entendendo a “educação como comunicação normativa”, como eu a entendo, o outro é a sua justificação ética e a liberdade, a solidariedade, a tolerância e o respeito os seus esteios.

Isto supõe que o outro é sempre o outro para mim e eu sou o outro para ele, ou, numa relação comunicacional, o eu é sempre o eu para o tu e o tu sempre o tu para o eu, independentemente de quem seja o tu ou o eu. Justificam-se ou excluem-se mutuamente e são também os seus próprios limites mútuos.

Neste sentido, a educação será o conjunto de todos os processos e procedimentos que tornem possível a vida em comum através do ensinar e do aprender modos de ser, pensar, dizer e de fazer que nos façam homens, isto é, dignos uns dos outros, livres, solidários, tolerantes e respeitadores, e, por isso, conscientes que apenas nos fazemos humanos quando nos fazemos com o outro. O outro é, assim, a nossa razão de ser e o nosso limite.

Há, pois, limites. Nem tudo vale. Nem tudo tem valor. Nem tudo o que somos, pensamos, dizemos e fazemos tem valor porque nem sempre respeita os valores estruturantes da nossa humanidade. Por isso, são necessárias normas, regras, leis que normalizem, justifiquem e dêem sentido ao que fazemos. E quais serão elas?

A minha convicção é esta: tendo embora a marca da nossa historicidade, fora da qual nos esvaziaríamos da nossa humanidade e nos encheríamos de coisa nenhuma, e, portanto, podendo ser diferente a sua expressão circunstancial, as normas, as regras, as leis terão sempre que estar determinadas pelos valores que temos vindo a referir: a liberdade, a tolerância, a solidariedade e o respeito. Todo o modo de ser, pensar, dizer e de fazer que escape a esta determinação ética perde o sentido e deve ser normalizado.

Poder-se-ia considerar que os princípios, as normas, as leis, que dão dignidade ética a todo o modo humano de ser, pensar, dizer e de fazer devem ser universais nos seus fundamentos e particulares no seu uso. Portanto, nem uniformização de usos, nem relativização de princípios. Será no justo equilíbrio entre eles que se fará a educação.

Se se quiser, poder-se-ia traduzir neste imperativo: “Faz ao outro o que queres que te faça a ti”.

(Bem vistas as coisas, não anda muito longe do categórico kantiano: “Age de tal modo que a máxima da tua acção se possa tornar uma lei universal”. Ou andará?! Solicita-se ajuda.)

Suicidou-se outro professor

Tomei conhecimento do suicídio do colega José António Fernandes Martins, professor de Matemática e Ciências da Natureza na Escola EB 2,3 de Vouzela no Profblog.
Lembrei-me, então, da entrevista de Christophe Dejours, publicada no Público no dia 1 de Fevereiro do ano corrente, já referenciada e reverenciada  aqui no Nós.

Vale a pena recuperar um excerto que nos possa ajudar a compreender o que se está a passar entre nós.
Para quem ainda não leu a entrevista pode lê-la aqui.

Mas como é que o trabalho pode conduzir ao suicídio? Só acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?

Só muito recentemente é que percebi que uma pessoa podia ser levada ao suicídio sem que tivesse até ali apresentado qualquer sinal de vulnerabilidade psicopatológica. Fiquei extremamente surpreendido com um caso em especial, do qual não posso falar muito aqui, porque ainda não foi julgado, de uma mulher que se suicidou na sequência de um assédio no trabalho.

A Polícia Judiciária [francesa] tinha interrogado os seus colegas de trabalho e, como a ordem vinha de um juiz, as pessoas falaram. Foram 40 depoimentos que descreviam a maneira como essa mulher tinha sido tratada pelo patrão (apenas uma contradiz as restantes 39). E o que emerge é que, devido ao assédio, ela caiu num estado psicopatológico muito parecido com um acesso de melancolia.
Ora, o que mais me espantou, quando procurei sinais precursores, é que não encontrei absolutamente nada. E, pela primeira vez, comecei a pensar que, em certas situações, quando uma pessoa que não é melancólica é escolhida como alvo de assédio, é possível fabricar, desencadear, uma verdadeira depressão em tudo igual à melancolia. Quando essa pessoa se vai abaixo, tem uma depressão, autodesvaloriza-se, torna-se pessimista, pensa que não vale nada, que merece realmente morrer.

Era uma mulher hiperbrilhante, muitíssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crianças óptimas e um marido excepcional. Falei com os seus amigos, o marido, a mãe. Não encontrei nenhum sinal precursor, nem sequer na sua infância.

Aconteceu sem pré-aviso?

Houve um período crítico que terá durado um mês. As pessoas à sua volta deram por isso. Viram que ela estava muito mal, o médico do trabalho foi avisado e obrigou-a a parar de trabalhar e pediu a alguém que a levasse para casa. Mas ela não queria parar, insistia que queria fazer o que tinha a fazer. A família também percebeu que algo estava a acontecer, ela consultou um psiquiatra, mas é impossível travar este tipo de descompensação. Foi para casa da mãe, mas quando pensaram que estava a melhorar um pouco, relaxaram a vigilância e ela atirou-se pela janela.

Pelos testemunhos recolhidos pela polícia, vê-se claramente que ninguém se atreveu a ajudá-la; todos dizem que tinham medo. Tinham medo do patrão, que era um tirano. Também assediava sexualmente as mulheres e esta mulher era muito bonita. Não consegui saber se tinha havido assédio sexual, mas várias pessoas evocam no seu depoimento que ela terá caído em desgraça porque se tinha recusado a fazer o que ele queria.

O caso da France Télécom foi muito mediático, com 25 suicídios. O suicídio é mais frequente nas grandes empresas?

Não. Nas grandes empresas pode ser mais visível, mas há também muitas pequenas empresas onde as coisas correm muito mal, onde os critérios são incrivelmente arbitrários e onde o assédio pode ser pior. Nas grandes empresas, subsiste por vezes uma presença sindical que faz com que os casos venham a público. Foi assim na France Télécom. Mas não acredito que a destruição actual do mundo do trabalho esteja a acontecer apenas nalgumas grandes multinacionais. E é importante salientar que também há multinacionais onde as coisas correm bem.

Quantas pessoas se suicidam por ano, em França e noutros países?

Não há estatísticas do suicídio no trabalho. Em França, foi constituída uma comissão ministerial onde pela primeira vez foi dito claramente que é urgente aplicar ferramentas que permitam analisar a relação entre suicídio e trabalho. Mas, por enquanto, isso não existe. Nem na Bélgica, nem no Canadá, nem nos Estados Unidos, não existe em sítio nenhum.

Na Suécia, por exemplo, há provavelmente tantos suicídios no trabalho como em França. Mas não há debate. Em muitos países não há debate, porque não existe esse espaço clínico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em França. De facto, a França é dos sítios onde mais se fala do assunto. O debate francês interessa muita gente, mas também mete muito medo.

Em França, foi feito um único inquérito, há quatro anos, pela Inspecção Médica do Trabalho, em três departamentos [divisões administrativas], passando pelos médicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suicídios em cinco anos. É provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, dá entre 300 e 400 suicídios no trabalho por ano.

Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?

É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.

É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viação ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso não reflecte o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e não tenha publicado durante vários anos porque não conseguiu obter resultados.

Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produção ou do serviço] está a degradar-se. Então, para além das avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objectivo a “qualidade total”. Não conhecem os ofícios, mas vão definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.

Para além de que declarar a qualidade total é catastrófico, justamente porque a qualidade total é um ideal. É importante ter o ideal da qualidade total, ter o ideal do “zero-defeitos”, do “zero-acidentes”, mas apenas como ideal.

Em diabetologia, por exemplo, os gestores introduziram a obrigação de os médicos fazerem, para cada um dos seus doentes, ao longo de três meses, a média dos níveis de hemoglobina glicosilada A1c [ri-se], que é um indicador da concentração de açúcar no sangue. A seguir, comparam entre si os grupos de doentes de cada médico – é assim que controlam a qualidade dos cuidados médicos. [ri-se]
Só que, na realidade, quando tratamos um doente, às vezes o tratamento não funciona e temos de perceber porquê. E finalmente, o doente acaba por nos confessar que não consegue respeitar o regime alimentar que lhe prescrevemos, porque inclui legumes e não féculas e que os legumes são mais caros... Tem três filhos e não tem dinheiro para legumes. E então, vamos ter de encontrar um compromisso.

Da mesma forma, se um doente diabético é engenheiro e tem de viajar frequentemente para outros fusos horários, torna-se muito difícil controlar a sua glicemia com insulina. Mais uma vez, vai ser preciso encontrar um meio-termo. E isso é difícil.

Mesmo uma central nuclear nunca funciona como previsto. Nunca. Por isso é que precisamos de “trabalho vivo”. A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não quer ouvir falar disso.

Ora, quando o ideal se transforma na condição para obter uma certificação, o que acontece é que se está a obrigar toda a gente a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Deixa de ser possível falar do que não funciona, das dificuldades encontradas. Quando há um incidente numa central nuclear, o melhor é não dizer nada.

Isso é extremamente grave.

É. E em medicina passa-se a mesma coisa. Faz-se batota. Hoje, existem nos hospitais as chamadas “conferências de consenso” – acho que existem em toda a Europa – onde são feitas recomendações precisas para o tratamento de tal ou tal doença. E quando um médico recebe um doente, tem de teclar no computador para ver o que foi estabelecido pela conferência de consenso. O médico, que tem o doente à sua frente, pensa que essa não é a boa abordagem – porque sabe que o doente tem problemas com a mulher, com os filhos e não vai conseguir fazer o tratamento recomendado. Mas sabe também que se não fizer o que está lá escrito, e se por acaso as coisas derem para o torto, poderá haver um inquérito, a pedido da família ou de um gestor, e vão dizer que foi o médico que não fez o que devia. O problema da qualidade total é que obriga muitos de nós a viver essa experiência atroz que consiste em fazer o nosso trabalho de uma forma que nos envergonha.

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi Camarade de Jean Ferrat.
A força da palavra na nudez de uma voz inconfundível no mês da sua morte.



Jean Ferrat. Camarade (1970)

C’est un joli nom Camarade C’est un joli nom tu sais Qui marie cerise et grenade Aux cent fleurs du mois de mai Pendant des années Camarade Pendant des années tu sais Avec ton seul nom comme aubade Les lèvres s’épanouissaient Camarade Camarade

C’est un nom terrible Camarade C’est un nom terrible à dire¶ Quand, le temps d’une mascarade Il ne fait plus que frémir Que venez-vous faire Camarade Que venez-vous faire ici Ce fut à cinq heures dans Prague Que le mois d’août s’obscurcit Camarade Camarade

C’est un joli nom Camarade C’est un joli nom tu sais Dans mon cœur battant la chamade Pour qu’il revive à jamais Se marient cerise et grenade Aux cent fleurs du mois de mai

quinta-feira, 25 de março de 2010

"Me llaman calle"

Da conversa à mesa da cantina da escola soltou-se Manu Chao e "Me llaman calle"

Talvez Poema

Às vezes julgando-me poeta
escrevo linhas ambiciosas
com que pretendo mergulhar no mistério do mundo
e afastar as cortinas que do sentido da vida
me separam.

Incapaz de tamanha ambição
regresso à minha condição
de homem que pensa
sonha tropeça cai.

E se levanta.

terça-feira, 23 de março de 2010

Indisciplina(s)

A indisciplina exprime-se de múltiplas formas.

Na escola ou fora dela são diversas as formas de comportamentos destoantes, desviantes ou mesmo antagónicos quanto às regras definidas pela comunidade escolar, educativa ou outra. Fora ou nas margens da disciplina, portanto.

A definição de regras, de normas, deveres ou leis, reconhecidos importantes ou mesmo fundamentais para a vida em comum, para nos fazermos humanos uns com os outros, é uma prerrogativa que, de modo algum, poderá ser menosprezada e muito menos esquecida pela sociedade ou comunidade a que a escola pertence. A escola deve, por conseguinte, assumir o dever estruturante da definição de valores, normas e regras que lhe permitirão cumprir o seu destino educativo: ajudar as crianças e jovens que a frequentam a crescer, equilibrada e globalmente, com aquilo que lhes ensina.

O problema que deveremos colocar não está ligado à necessidade das regras, dos valores e dos deveres (mal estaríamos se o estivesse). O problema diz respeito às próprias regras, aos valores, aos deveres e aos objectivos, metas e finalidades que se deseja para a escola e para a educação.

Todos sabemos que o desrespeito pela lei torna a acção ilegal. Mas deveremos obediência a uma lei iníqua, emitida pelo órgão com poder legislador de um qualquer país, instituição ou organização? Deveremos respeito a normas que em nada contribuam para a elevação individual e colectiva ou, pior, que a inibam? Deveremos gastar o poder normativo e normalizador, competência de adultos e educadores, para disciplinar comportamentos, que lhes são estranhos na sua estranheza e diferença ou porque são eticamente inaceitáveis ao violarem valores fundantes do nosso modo humano de ser, pensar, dizer e fazer: a liberdade, o respeito, a solidariedade e a tolerância? Deveremos, enquanto professores e educadores, disciplinar modos de ser, pensar, dizer e fazer infantis, adolescentes ou outros segundo uma ideia de sociedade que habitamos?

Deveremos disciplinar? Deveremos normalizar? Deveremos penalizar?

O caso passou-se vai para vinte e cinco anos numa escola de uma zona classe A de Lisboa, numa turma do 10º ano. A turma era constituída por bons alunos, muito jovens e … barulhentos. Não era fácil trabalhar com eles. Na disciplina de Físico-Química a professora, cansada certamente do ruído que os alunos faziam, todos os dias mostrava o seu desgosto pelo facto de os alunos não se calarem. Passadas semanas, sem que nada o fizesse suspeitar, na aula de Físico-Química os alunos permaneceram calados, absolutamente calados, mesmo quando solicitados directamente pela professora, durante toda a aula. O resultado já o sabemos: a professora não conseguiu dar a aula e mergulhou num choro desesperado na sala de professores. Os alunos estavam radiantes porque “mesmo a Leonor (nome fictício) não respondeu às perguntas da professora” (A Leonor era uma menina sentada na primeira carteira frente ao professor, sempre muito atenta e calada).
O ano restante continuou sem problemas assinaláveis.

A indisciplina manifesta-se de muitas maneiras.
Ou não será indisciplina?

Como lidar com situações como esta?
Porque não aconteceu nas outras disciplinas da turma?
Porquê, porquê, porquê?

domingo, 21 de março de 2010

Talvez Poema

O que dizer
quando o dizer
não é bastante ?

Indaga-se a alma
no silêncio do olhar

e diz-se tudo
o que está aquém e além
do nomear

Bom dia!

Hoje há primavera
no canto do chapim
e no gaio que vem buscar
as bolotas ao carvalho
do teu jardim.

sábado, 20 de março de 2010

Poema

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi também Across the universe.

1970 - 40 anos

Ainda o álbum Bridge over troubled waters.
(O filme foi realisado pelos jovens alunos que aparecem no fim...)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Talvez Poema

Para o Rui

Um amigo ofereceu-me
um cofre
com um segredo embrulhado
em palavras.

As palavras dizem coisas
fazem coisas
escondem coisas
desvendam coisas

espreitam-nos o olhar
e aguardam o tempo oportuno
em que o gesto
se faz sua voz

e  assim pouco a pouco
como quem desfolha uma flor
as palavras foram desembrulhando
o segredo do cofre
que o meu amigo
me ofereceu embrulhado
em palavras.

Chopin - 200 anos

A esta hora da noite fui assaltado pelo insuspeito desejo do nocturno nº 1 de Chopin e pelas velas iluminando o som do piano de Maria João Pires.
No segundo centenário do nascimento do pianista que tocava como quem abraça: com ternura e humilde esvaziamento de si entre os braços que nos acolhem.

terça-feira, 9 de março de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi The Boxer que ouvimos, ouvimos, ouvimos.

sábado, 6 de março de 2010

"Podem ajudar-me a destruir a minha escola com os professores lá dentro?"

O que se segue é um documento impressionante sob variados pontos de vista: o discurso de uma criança de 9 anos, a relação com os adultos que a atendem ao telefone, a organização da comunicação da empresa e acima de tudo o desencanto da criança em relação à escola e aos professores porque, pelo que diz no telefonema (salvaguardando outras razões que nos escapam), lhe marcaram trabalhos da casa na sexta feira. "Ninguém gosta dos professores", proclama.
Voltam as questões aterradoras: que escola andamos a criar? Que crianças andamos a educar? Que mundo andamos a fazer? Que educação andamos a promover que leva uma criança de 9 anos a desejar a sua destruição com os professores lá dentro? Porque tem que fazer trabalhos de casa à sexta-feira ou porque estamos a educá-las para o desejo, para o prazer, para o sucesso esquecendo os seus opostos que os acompanham como sombras: a frustração, a dor, o fracasso?

Para ouvir e reflectir.



Agradecimentos à Otelinda.

quinta-feira, 4 de março de 2010

"Todos batem em todos"

Boa noite a todos os amigos e visitantes.
Estive sem internet e arredado da blogosfera por uns dias. Regresso hoje e começo por aqui porque não se pode calar o sentido da morte de uma criança que "estava farto de levar pancada" ou porrada, tanto faz.

A morte de uma criança na escola ou por causa dela devia obrigar-nos a parar para nos olharmos bem no espelho, de olhos nos olhos e nos perguntarmos que raio de escola, de educação, de filhos, de pais andamos a criar? É que, já o dissse aqui e noutros espaços, os filhos não nascem crescidos e os pais já foram filhos, já foram alunos. E nós, crescidos, adultos, pais, professores, economistas, gestores, políticos o que fizemos? O que fazemos? Dar-nos-emos conta que estamos a formar os adultos, pais, professores, economistas, gestores, políticos, médicos, funcionários, operários e trabalhadores de amanhã? E com que modelos os estamos a formar ou são eles que se estão a fazer a si mesmos, entregues a um vazio normativo e modelar de que nos havemos de lamentar ainda mais, muito mais?

É redundante mas é necessário insistir: os filhos não nascem crescidos. Os alunos também não. Crescem com aquilo que lhes dermos. Seria bom que, mais uma vez, regressássemos ao espelho e de olhos nos olhos lhe disséssemos o que fizemos, o que fazemos para ajudarmos a crescer os bebés, que hão-de ser crianças, adolescentes, jovens, adultos. E não vale a pena afastar o olhar: o espelho persegue-nos como a sombra que trazemos colada aos pés. E não vale olhar para o vizinho: ele próprio olhará para nós e assim nos distraímos uns com os outros e nos alheamos do que é verdadeiramente importante: ajudar os alunos a crescer.

E há ainda uma outra dimensão assustadora nesta tragédia: a dimensão mimética do comportamento humano, especialmente nas crianças e adolescentes. O que farão todos os pequenos, vítimas dos grandes, que sentem a mesma impotência e falta de solidariedade dos colegas e adultos da escola? O que farão para calar a revolta, a indignação, a fragilidade perante a manifesta indiferença da escola perante o sucedido e o seu anúncio?

E os pais? O que farão com a sublimação má-consciente da culpa da ausência que sabem também ser sua?

E os empregadores? O que farão com a indiferença perante o drama alheio e o narcísico centramento no umbigo, emoldurado com o jargão economês de um liberalismo ressuscitado que nos há-de levar à sepultura?

E os políticos e governantes? O que farão com o progressivo esvaziamento do discurso e da acção em que se atolam e nos afundam?

É verdade que " com a orte de uma andorinha não acaba a primavera" mas também é verdade que com a morte de uma criança há muito de nós que morre com ela.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi Traz outro Amigo também.
Há 23 anos foi a morte de Zeca
Hoje é a homenagem à voz por excelência da portugalidade

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dizeres Anónimos com Autor

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade" refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Carlos Paredes - Verdes Anos

Homenagem ao homem de mãos simples e olhar sereno no abraço terno ao som de uma guitarra pelo aniversário do seu nascimento.

1970 - 40 anos

Foi Cosmo’s Factory de CCR e este Who'll stop the rain, para quem suspira pelo sol na eira…


Sapere aude!

"Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento [Aufklärung].
[…]
Para este esclarecimento [Aufklärung], porém, nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. Ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! (Um único senhor no mundo diz: raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade. Que limitação, porém, impede o esclarecimento [Aufklärung]? Qual não o impede, e até mesmo favorece? Respondo: o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento [Aufklärung] entre os homens. O uso privado da razão pode, porém, muitas vezes, ser muito estreitamente limitado, sem contudo por isso impedir notavelmente o progresso do esclarecimento [Aufklärung]. Entendo, contudo, sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem, enquanto SÁBIO, faz dela diante do grande público do mundo letrado. Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, para muitas profissões que se exercem no interesse da comunidade, é necessário um certo mecanismo, em virtude do qual alguns membros da comunidade devem comportar-se de modo exclusivamente passivo para serem conduzidos pelo governo, mediante uma unanimidade artificial, para finalidades públicas, ou pelo menos devem ser contidos para não destruir essa finalidade. Em casos tais, não é sem dúvida permitido raciocinar, mas deve-se obedecer. Na medida, porém, em que esta parte da máquina se considera ao mesmo tempo membro de uma comunidade total, chegando até a sociedade constituída pelos cidadãos de todo o mundo, portanto na qualidade de sábio que se dirige a um público, por meio de obras escritas de acordo com seu próprio entendimento, pode certamente raciocinar, sem que por isso sofram os negócios a que ele está sujeito em parte como membro passivo".

Kant, E Resposta à Pergunta: Que é esclarecimento []?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Música para Namorados

Música para Namorados

Música para Namorados

Música para Namorados

Música para Namorados

Beatles - Girl

Talvez Poema no Dia dos Namorados

17.
Do teu olhar
solta-se a luz encantada
da primavera
em que as borboletas dão cor
ao arco-íris
na transparência do seu voar.

São assim os dias despertos
das sombras do inverno
envoltas no manto gelado
do nevoeiro que cerca
a noite.

Felizmente quando a noite
toma conta dos gestos
e a fala
se apaga no silêncio vazio
dos sentidos
ergue-se o arco-íris
no teu olhar
e a primavera
irrompe no canto desenfreado
do chapim
fazendo ninho no carvalho
do teu jardim.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Bom dia

Afinal já vem de longe a dificuldade de adaptação à novidade e às novas "tecnologias"...
Tenham um dia risonho!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi After the Gold Rush de Neil Young e o tema Only love can break your heart

Memórias - Primeiro Dia

Primeiro dia de aulas. 11º ano de mecanotecnia e electrotecnia. A sala ao fundo do corredor ficava no segundo piso do bloco 2. Ao longo do corredor as salas tinham pequenas janelas junto ao tecto que serviam para ventilar as salas, mais do que para iluminar. Parte dos alunos entraram com o professor. Outros haviam de chegar mais tarde. Durante a chamada ouve-se um barulho de tropel a subir as escadas, a correr pelo corredor ao mesmo tempo que se ouvia bater com as mochilas nas pequenas janelas. Ouve-se bater à porta. Abrem a porta, espreitam e perguntam “dá licença, professor?”. O professor, por sua vez, diz-lhes “não foram vocês que fizeram esse barulho todo, pois não?” Entraram no jogo irónico, responderam com sorriso disfarçado “não, professor!” “Bem me parecia que não eram capazes de fazer isso”. Entraram, sentaram-se e começou o ano. Os problemas disciplinares esgotaram-se ali.

Memórias

Nasce aqui uma nova secção no Nós. Memórias pretende trazer à memória alguns momentos que marcaram o meu percurso pedagógico e educativo.
Serão apresentadas experiências que, de uma forma ou de outra, foram estruturando o modo como o ensinar e o aprender se foram formalizando e desenvolvendo. E serão apresentados como relatos, como descrições da memória que guardo delas. Buscarão a aproximação mais rigorosa possível ao acontecido sem comentários ou interpretações. Se comentários e interpretações houver serão os que resultarem dos comentários que despoletarem aos leitores que os visitarem.

A intenção é simples: comunicar parte da experiência com que se fez o meu modo de entender e fazer o ensinar e o aprender, isto é, de dizer sucessos e fracassos, meus e alheios, que, a seu modo, possam desencadear outros modos de ensinar e de aprender.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Talvez Poema

16.
Palavras

Parece-me
tão estranha a cadência das palavras
que me assaltam os dedos
que me pergunto
donde nascem
o que pretendem
que força as habita que me arrasta
os gestos
além do corpo que os prende,
me assalta
a voz
além do som que as solta
e me cria
o pensar
além do esforço que o produz.

Creio nas palavras como seres
que vivem
sonham
amam
(e os seus contrários também)
e respondem à nossa estima
com a revelação do silêncio donde nasceram.

'PlanIt Valley' - Cidade inteligente em Paredes

A notícia li-a no Expresso e o que representa para a região deprimida do Vale do Sousa é de uma importância tal que só a nossa velha desconfiança, reforçada com as decepções dos últimos tempos, justifica o pouco relevo que lhe foi dado.
De resto, é estranho que nenhum amigo da região soubesse alguma coisa sobre isto. Ou talvez não o seja …
 Mas que o assunto é extraordinário e que mexerá indelevelmente com a região e com o país disso não tenhamos dúvidas.
Para bem de todos. Se se concretizar…
Ai o velho camoniano não nos larga!...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poema

Certa Velhinha

1
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes...
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?

Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem...

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar...

Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez...

Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor...
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor...

A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha...
Que noite de inverno que parece verão!

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!

Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar,
Que pela tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite destas, eu vejo passar...

Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é...
- Jezus! Jezus!

António Nobre - Só

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi a dissolução do grupo que mais influenciou a música pop-rock. Foi igualmente o ano de Let it Be e de Two of us que o abre.

“O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”

Da longa e excelentíssima entrevista de Christophe Dejour ao Público, anunciada no post anterior, seleccionámos o excerto que se segue. As razões são de tal modo óbvias e estão de tal modo ligadas a uma prática que começamos a conhecer e a vivenciar de uma maneira tão desencantada e preversa que redundante justificar a esta selcção. (Felizmente, como sempre, o ar fresco ainda corre em muitas escolas, que são as organizações que, sobretudo, aqui nos ocupa).

O que não é redundante é a reflexão que a entrevista como um todo e este escerto em particular certamente despoletam e, mesmo, exigem. É para ela que estão convidados os amigos (são todos) que nos visitam.

Para já o excerto.

"Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.

Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.

Então, é preciso acabar com essas práticas?

Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra.

Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.

O resultado é desastroso. Não é verdade que a qualidade da produção melhorou. A General Motors foi obrigada a alertar o mundo da má qualidade dos seus pneus; a Toyota teve de trocar um milhão de veículos por veículos novos ou reembolsar os clientes porque descobriu um defeito de fabrico. É essa a qualidade total japonesa?

Hoje, nos hospitais em França, a qualidade do trabalho não aumentou – diminui. O desempenho supostamente melhorou, mas isso não é verdade, porque não se toma em conta o que está a acontecer do lado do trabalho colectivo.

Temos de aprender a pensar o trabalho colectivo, de desenvolver métodos para o analisar, avaliar – para o cultivar. A riqueza do trabalho está aí, no trabalho colectivo como cooperação, como maneira de viver juntos. Se conseguirmos salvar isso no trabalho, ficamos com o melhor, aprendemos a respeitar os outros, a evitar a violência, aprendemos a falar, a defender o nosso ponto de vista e a ouvir o dos outros.
[…]
Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?

Hoje, estou em condições de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patrões não participam do cinismo geral e pensam que a empresa não é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produção, que não pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber são os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam tão bem servidos como os ricos – que tenham aquecimento, telefone, electricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade.

Há também muita gente que acha que produz coisas boas – os aviões, por exemplo, são coisas belas, são um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da protecção do ambiente. O lucro não é a única preocupação destas pessoas.

E, entre os empresários, há pessoas assim – não muitas, mas há. Pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre. E, na sequência das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliação do desempenho. Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.

O que fizeram?

Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.

Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.
Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.

Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente".

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Embora com algum atraso em relação à sua publicação no Público, reverenciamos e referenciamos hoje no Nós a entrevista de Christophe Dejours pela sua ctualidade e implicações no ensinar e aprender que estamos a promover nas nossas escolas, na família e na sociedade de um modo geral.

Às vezes sou assaltado por esta convicção perturbadora e preocupante: estamos a caminhar para o abismo encantados da vida, ocupados com as minudências de um quotidiano avassalador e extenuante. Distraídos e alienados. Na escola, no trabalho, na família, na sociedade.

"Nos últimos anos, três ferramentas de gestão estiveram na base de uma transformação radical da maneira como trabalhamos: a avaliação individual do desempenho, a exigência de “qualidade total” e o outsourcing. O fenómeno gerou doenças mentais ligadas ao trabalho. Christophe Dejours, especialista na matéria, desmonta a espiral de solidão e de desespero que pode levar ao suicídio.

Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, de gravata amarela, cabeleira “à Beethoven” e olhos risonhos a espreitar por detrás de pequenos óculos de massa redondos, falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal. Não há “trabalho vivo” sem sofrimento, sem afecto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a inteligência e guia a intuição no trabalho, que permite chegar à solução que se procura.

Claro que no outro extremo da escala, nas condições de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a questão do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.

Depois da conferência, o médico e cientista falou com o P2 sobre as causas laborais desses gestos extremos, trágicos e irreversíveis. Mais geralmente, explicou-nos como a destruição pelos gestores dos elos sociais no trabalho nos fragiliza a todos perante a doença mental."
Entrevista

“O cancro também pode ser prevenido”

O mote das comemorações do Dia Mundial contra o Cancro, que hoje se assinala, é "o cancro também pode ser prevenido". O objectivo é lembrar que os estilos de vida saudáveis e a prevenção podem evitar até quatro em cada dez casos.

O cancro é a principal causa de morte no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, se não for tomada nenhuma medida, 84 milhões de pessoas venham a morrer de cancro entre 2005 e 2015.

Em Portugal, Carlos Oliveira, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, diz que a “grande bandeira hoje é chamar a atenção da população para a Linha Cancro, que pode ajudar as pessoas a nível nacional”.

Através do número 808 255 255 – que existe há cerca de dois anos - as pessoas com dúvidas podem esclarecer “qualquer aspecto relacionado com o cancro, desde o diagnóstico, tratamentos, a aspectos relacionados com a incidência e a alimentação”.

- Cancro do pulmão é a forma da doença que mata mais pessoas e poderá aumentar se as medidas de combate ao tabagismo não forem "muito intensificadas".

- Nos países desenvolvidos, as formas de cancro mais comuns são o da próstata, mama e cólon. Nos países em desenvolvimento, o cancro ataca mais o fígado, o estômago e o colo do útero.

Em relação ao mote adoptado neste dia, Carlos Oliveira explicou à Renascença que este está relacionado, por um lado, com o facto de o cancro poder ser provocado por vírus e até por bactérias. “No caso dos vírus sabe-se que um dos cancros mais frequentes a nível mundial e mesmo em Portugal é o Cancro do Colo do Útero, que pode ser evitado com a utilização de uma vacina conta o HPV – vírus responsável pelo aparecimento deste tumor, que se transmite através de contactos sexuais”; por outro, com a adopção de um estilo de vida mais saudável – dieta variável e sem excessos , não fumar e beber com moderação.
“No caso na alimentação, o recurso a dietas equilibradas, evitando produtos com maior actividade carcinogénica e consumindo aqueles que podem ajudar a prevenir - como os vegetais e as frutas. O cancro do pulmão pode ser em grande parte evitado se deixarmos de fumar, o consumo de tabaco aumenta o risco de outros tipos de tumores: cancro do colo do útero e cancro da bexiga”, explica.

Daqui

Saber mais

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dizeres Anónimos com Autor

"Si vous êtes pris dans le rêve de l'autre, vous êtes foutu"

Dizeres Anónimos com Autor

Inicia-se agora no Nós uma nova secção.
É uma secção constituída por citações de textos de tamanho variável,  sempre pequenos e nunca com o autor identificado. Sabemos bem no Nós que não há textos sem autor. Feliz ou infelizmente os textos não se escrevem a si mesmos. Têm um autor a quem devemos estar gratos pelo que pensaram, pelo que escreveram e no qual e pelo qual aprendemos a ler, a escrever, a pensar e, em larga medida, a ser. Então porquê não identificar o autor dos textos que serão usados nesta secção e apenas nesta secção? Por duas razões fundamentais:

1. Porque pensamos que, na linha dos hermeneutas e, sobretudo, Ricoeur, um texto deve valer por si mesmo, independentemente do seu autor.
Um texto vive da leitura que dele se faz. Melhor: um texto vive na leitura que o actualiza, que o torna actuante, que o faz activo, interventivo, capaz de dizer alguma coisa  a quem o lê no momento em que o lê. Independentemente do seu autor e do sentido que ele lhe quis atribuir. Deste modo, é ao leitor que compete valorizar o texto, que compete dizer o que o texto diz no momento em que o faz dizer. O interesse do texto está pois essencialmente na leitura.

É certo que apenas podemos ler o que está escrito. Mas é igualmente certo que um texto escrito apenas tem interesse quando o leitor lho reconhece e lho atribui na interpretação que dele faz, no momento em que a faz. Claro que todos sabemos que uma interpetação séria, rigorosa e justa apenas explicita o que já está no texto que interpreta. Não inventa, lê e interpreta na leitura contextualizada que faz. E assim faz do texto um ser que se alimenta dos leitores.

Deste modo, o sentido que se constrói na leitura resulta de um dinâmica triádica, que se desenvolve, por conseguinte, em três momentos:

1. Ler o que está no texto;
2. Ler o que não está no texto;
3. Construir o sentido na tensão entre o que está e não está no texto, entre o explícito e o implícito, entre o signo, a metáfora e o símbolo, entre a língua e a linguagem. Entre, enfim, o significado e a interpretação.

Em todo o caso, convém reafirmar o que se disse acima: o leitor não inventa, descobre! Des-cobre - mostra o que já existe mas está encoberto.

2. Apenas nesta secção se usarão textos sem identificação do autor porque no Nós abominamos o plágio. Portanto, todos os amigos que nos lerem nesta secção saberão à partida que todos os textos têm autor, estão identificados mas não é revelada a identificação. Sê-lo-à sempre que seja manifestado esse desejo.

Finalmente, sabemos também que a frase não é um texto. Mas também sabemos que há frases de tal modo profiquas, plurívocas ou polissémicas que vale a pena nelas mergulhar com a acutilância de que formos capazes. Por isso, as usaremos aqui.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi El Condor pasa de Bridge over Troubled Waters.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Correntes 2010



Está disponível aqui o programa do Correntes D’Escritas 2010.
À beira mar com sol ou luar a festa da palavra.

domingo, 31 de janeiro de 2010

APF - Sexualidades


Está disponível no sítio da APF-Associação de Professores de Filosofia (http://http//www.apfilosofia.org/Sexualidade(s)_net.pdf) o programa e a ficha de inscrição no 24º Encontro de Filosofia.

O Encontro "tem este ano o formato de Almoço-debate e é dedicado ao tema “Sexualidade(s)”. O tema será abordado por Paulo Gama Mota, Miguel Vale de Almeida e Teresa Gonçalves. Neste encontro será importante a disponibilidade para o debate de todos os participantes. O almoço está incluído no valor da inscrição.

Do ponto de vista associativo é muito importante que possa estar presente para que a chama que mantém a Associação de Professores de Filosofia não se extinga. É a única oportunidade anual para nos juntarmos, trocarmos ideias, partilhar angústias, descobrir novas ideias. Por isso, é muito importante a sua participação no Encontro e na Assembleia Geral, que este ano será eleitoral.

Marque presença! O local de encontro é o Hotel D. Luís, em Coimbra.
Saudações cordiais,

A Direcção da Associação de Professores de Filosofia".

Se outras razões não houvesse para participar no Encontro bastaria a possibilidade de encontrar colegas e amigos dispersos que, fruto do ritmo, dos afazeres, dos trabalhos, da distância, aproveitam o Encontro para se encontrar. Há, porém, outras razões: conversar e discutir com professores e investigadores sobre temas de manifesta actualidade e interesse.

É verdade que o acesso à informação e a bons textos já não está limitado pela dificuldade anterior à generalização do uso da web. Mas olhar nos olhos o dizer dos conversadores/faladores/locutores/oradores (consoante a dimensão que quisermos valorizar na relação comunicacional) é insubstituível na construção do sentido. Porque, evidentemente, o sentido é uma construção que se faz na relação linguageira entre os falantes.

A este propósito faço-me socorrer de um excerto de A Educação como Comunicação Normativa:
"O sentido não se oferece, nem é dado. O sentido faz-se no jogo intercomunicacional envolvendo sujeitos historicamente situados. Constrói-se no labor intersubjectivo do uso linguageiro de sujeitos pertencendo a um grupo ou a uma comunidade. Constrói-se, portanto, nos jogos de linguagem desenvolvidos na prática linguageira quotidiana dos sujeitos em inter-relação comunicacional, segundo o suporte de razões e argumentos contextualizados; "uma coisa é certa, diz Michel Meyer (s/d, Lógica, Linguagem e Argumentação, Lisboa, Ed. Teorema, p. 115) : a linguagem natural ignora a neutralidade contextual, e é no contexto de uso que se enraízam as condições de sentido" Com efeito, "a descoberta do sentido provém do contexto e da informação que ele contém para o auditório" (idem: 140). Por outro lado, a concepção problematológica de Meyer leva-o a considerar que "o sentido não é nem a resposta, nem a questão, mas o elo questão-resposta. É o problema a resolver que dá o sentido à solução que esta não possui isoladamente" (idem: 139). De resto, neste processo de questionamento a resposta "diz o que diz sem dizer que o diz" (idem: 140), afirmando mais qualquer coisa para além do que estava implícito na questão: "ela diz aquilo acerca do qual se pergunta, e porque há resposta, di-lo como não havendo mais pergunta. Esta manifesta-se como ausência necessária à presença do discurso" (ibid.). Por isso, a presença de uma questão "enquanto algo implícito no dizer, consagrado pela resposta, actuando de forma interna, tem um sentido" (idem: 141). Este questionamento exige o hic et nunc contextual. Neste sentido, "o contexto inclui a ligação ao Outro, ao qual nos dirigimos, e consequentemente, engloba a situação do locutor, assim como a reflexividade da qual se autoriza a linguagem, pelo que o ponto de vista exteriorizado do Outro sobre si é uma possibilidade de linguagem global. Se existe o Outro, existe o Eu que lhe fala, e um não é concebível sem o outro, incluindo a possibilidade que o Eu tem de captar a posição que o Outro adopta a seu respeito, apreensão que é forçosamente reflexão" (idem: 115)".

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi Jonathan Livingston Seagul de Richard Bach.
Três anos mais tarde era o filme e o disco.
Aqui e agora Lonely looking sky .

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Talvez Poema

15.
Se a vida não fosse mais do que manhã
o que faríamos da noite
em que moramos vestidos de sonhos e de fantasmas?

O que faríamos das sombras
que nos ocupam o olhar quando os passos
se perdem em caminhos já percorridos?

O que faríamos de nós?
O que faríamos?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Saudação

Era o início do dia, os mecânicos cumprimentavam-se. Saudavam-se sorridentes. Ele vestia de azul, calças e tshirt, barriga saliente, redonda, de cerveja, diz-se. Cruzou-se com outro mecânico entre automóveis de boca aberta. Saudou-o.

Ainda bem que te beijo.
Beijo de ver
não de beijar
que isso não é para homens.

Gargalharam, cúmplices e satisfeitos na sua masculinidade sublinhada.

Poema

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

1970 - 40 anos

Há 40 anos, há exactamente 40 anos, foi Bridge Over Troubled Waters, um dos mais belos álbuns da música pop anglo-americana.
Aqui, no Nós, disponibilizaremos uma por semana, todas as suas canções. Para deleite próprio e de todos os que se pensam e sentem “como uma ponte sobre águas turbulentas”.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Minha Escola - Prolegómenos

A Minha Escola é uma construção humana. É, pois, portadora das virtudes e dos limites dos homens que a foram fazendo à medida da sua historicidade. É, por isso, imperfeita na sua organização, limitada nos saberes que mobiliza, inacabada na sua construção. É, também por isso, uma organização dinâmica que se constrói no espaço e no tempo da historicidade dos sujeitos que a fazem. Neste sentido, a Minha Escola constrói-se entre a memória e a utopia. É um projecto.

A escola como projecto é herdeira de modos de ser, pensar, dizer e fazer que nos identificam como homens, como cultura, como civilização. Aqui e agora. Noutro tempo, noutro lugar outros seriam os saberes e os valores sobre os quais se construiria e lhe dariam razão de ser. Noutro tempo, noutro lugar outra seria a sua organização e sentido. Noutro tempo, noutro lugar outros seriam os sujeitos que a fariam, a dinamizariam e a destinariam. Outros seriam a sua finalidade. Neste sentido, centrada na historicidade dos sujeitos que a fazem, mobilizadora de modos de ser, pensar, dizer e fazer identitários do tempo e espaço que habitamos, a escola como projecto projecta-se no futuro, projecta o futuro na convicção de que apenas o presente, herdeiro de todos os presentes que se fizeram passado, o fará. É uma utopia.

A escola como utopia alimenta-se dos sonhos dos sujeitos que a fazem. Sujeitos que pensam, que estudam, que sabem, que ensinam; sujeitos que pensam, que estudam, que não sabem, que aprendem; sujeitos que pensam, que estudam, que falam, que dizem. Que comunicam. E, porque comunicam, põem em comum modos diferentes de ser, pensar, dizer e fazer e na diferença se reconhecem uns aos outros. Uns nos outros. E na diferença buscam pontes. Pontes que buscam a partilha da diferença. Sem a eliminar, sem a dominar, sem a absorver. Na convicção de que apenas a diferença nos faz idênticos, que somos o que somos no absoluto respeito pelo que não sou eu, que apenas somos porque não somos iguais, porque nos fazemos diferentes no que sabemos, no que pensamos, no que dizemos, no que fazemos, nos valores com que nos fazemos.

A Minha Escola constrói-se com valores. Diferentes mas nunca inócuos. Como uma casa a Minha Escola constrói-se com quatro paredes essenciais: a liberdade, a solidariedade, a tolerância e o respeito. Há outras paredes, umas melhores, outras piores, mas estas são as fundantes da Minha Escola. Aqui habita o saber e o dever. O saber da ciência, da filosofia, da poesia, da música, da literatura, da arte. Aqui habitam os valores éticos, estéticos, religiosos. Diferentes. Essenciais.

Finalmente, a Minha Escola destina-se a quem não sabe e quer aprender mas centra-se em quem sabe e quer ensinar. Há, pois, na Minha Escola a premência do dever, o imperativo ético que obriga quem sabe a ensinar, que obriga quem não sabe a aprender. O imperativo ético do absoluto respeito pelo outro pelas razões da sua diferença. O imperativo ético do dever de recurso aos melhores meios para que quem sabe ensine e quem não sabe aprenda. Meios, métodos, caminhos. Meios humanos, físicos, económicos, políticos; métodos científicos, pedagógicos, didácticos; caminhos comunicacionais, linguísticos, audiovisuais.

A Minha Escola é um projecto em construção na diferença de modos de ser, pensar, dizer e fazer de homens e mulheres com os ouvidos no passado, os passos no presente e o olhar no futuro.

Esta é a primeira pedra. Seguir-se-ão outras com a ajuda, colaboração e mestria de todos os que, de uma forma ou de outra, contribuem e contribuíram para a construção da Minha Escola. Bem-vindos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Bom dia

O sol já brilhou, o galo já cantou, o amor já despertou, a preguiça já abalou, a torrada já torrou, o café já chamou, o domingo já chegou e o sonho regressou.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi Le genou de Claire de Eric Rohmer.
Hoje é a homenagem ao cineasta da palavra que quis ser escritor, no dia seguinte ao seu falecimento. Não à morte, que se alimenta do esquecimento.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Neve e Talvez Poema

Hoje nevou no meu quintal horas a fio mas a neve não foi suficientemente persistente e acabou por desaparecer. Ficou o frio e a terra.
O que nos trará a noite? Que alvura nos acordará quando o despertador nos atormentar o sono? Veremos quando o sol nascer.
É tempo de irmos ao Sul, onde o Sol aqueça corpos e almas.

14.
Adiafa

Há em nós a memória de gostos e sabores de outros tempos. Gostos e sabores espraiados nas planuras do sul, abertos ao encanto dos sentidos. A memória de viagens e ritos antigos. A memória do banquete no calor festivo das cigarras.

Há em nós o desejo da visita desses gostos e sabores nos tempos e lugares da memória. Ao sul. Na brancura da cal, no calor do trigo, no perfume da esteva, no ouro do azeite, na festa do vinho.

É esse o tempo da Adiafa.

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi your song de Elton John e Bernie Taupin e as promessas e os sonhos e os amores.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010



"Foi divulgada a lista das dez obras finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, para a edição de 2010 do Correntes d’Escritas, que irá decorrer entre 24 e 27 de Fevereiro.

São elas, e por ordem alfabética:

A Eternidade e o Desejo, Inês Pedrosa
A Mão Esquerda de Deus, Pedro Almeida Vieira
A Sala Magenta, Mário de Carvalho
Myra, Maria Velho da Costa
O apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe
O Cónego, A. M. Pires Cabral
O Mundo, Juan José Millás
O verão selvagem dos teus olhos, Ana Teresa Pereira
Rakushisha, Adriana Lisboa
Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio
Esta lista de dez obras finalistas foi seleccionada pelo júri, constituído por Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho, Patrícia Reis, Vergílio Alberto Vieira. No total, foram submetidos a concurso 160 livros de autores de língua portuguesa, castelhana ou hispânica, com obras em 1ª. edição, em português e editadas em Portugal entre Julho de 2007 e Junho de 2009, excluindo-se as obras póstumas e ainda aquelas da autoria de galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos.

Grato a Em@ de cujo blogue excertei esta notícia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os políticos são…

Estou a pedir orçamentos para painéis foto voltaicos em micro-geração. Hoje fui visitado pelo representante de uma das marca. Fotografou o quadro da EDP, subimos ao telhado, fez considerações sobre o assunto que o tinha trazido a minha casa, apresentou-me um dossier com as informações mais importantes, incluindo o orçamento.

Começou então a conversa interessante. Contou da sua aventura na guerra na Guiné, nos States, na América Latina, numa estação de TV nacional, na caça ao veado, com muitas personalidades da TV, do futebol e, claro, da política. Contou histórias deste e daquele (a maior parte delas pouco edificantes para os seus autores) até ao clímax:

“Os políticos são como os espermatozóides: todos querem fecundar. Não se dá por eles mas quando chega a altura de constituição das listas começam todos na corrida para o lugar”.

Andamos nós à procura de definições e caracterizações para aqueles que se dedicam à política que digam aos alunos quão digna, interessante e importante é a actividade dos decidem do nosso viver colectivo e afinal é tão simples!...

Dos amigos para os amigos

A blogosfera tem destas coisas: ainda mal aqui chegámos e amigos que aqui nasceram ofertam-nos uma medalha, como um selo que se nos cola e nos identifica, pertencentes a uma espécie de comunidade que se alimenta de laços de solidariedade e de afecto.

Muito obrigado à Em@ por este "selo" que estendo a todos os amigos que visitam o Nós e cá deixam as suas pegadas.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Talvez Poema

13.
As palavras

As palavras soltam-se das mãos
hábeis do artesão
que as trabalha com a ternura
que se dedica aos seres
frágeis receoso
que se desvaneçam
em gestos desmedidos

As palavras instalam-se na voz
da escrita
que ouvidos atentos
hão-de alimentar nos sonhos
que hão-de semear
nas margens fugazes
do tempo
em que nos fazemos

As palavras são a voz
do silêncio primordial
que nos habita

Stabat Mater

No dia dos trezentos anos do nascimento de Pergolesi (4. 01. 1710 –  16. 03. 1736),  autor de uma das mais influentes composições de crácter religioso: Stabat Mater.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Poema

Poemas são como vitrais pintados!

Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? — Que lhe preste!...
E agastado fique toda a vida!

Mas — vamos! — vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Johann Wolfgang von Goethe, in "Poemas"
Tradução de Paulo Quintela

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi o Concerto de Ano Novo pela Filarmónica de Viena.
 Ano Feliz para todos.