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terça-feira, 23 de março de 2010

Indisciplina(s)

A indisciplina exprime-se de múltiplas formas.

Na escola ou fora dela são diversas as formas de comportamentos destoantes, desviantes ou mesmo antagónicos quanto às regras definidas pela comunidade escolar, educativa ou outra. Fora ou nas margens da disciplina, portanto.

A definição de regras, de normas, deveres ou leis, reconhecidos importantes ou mesmo fundamentais para a vida em comum, para nos fazermos humanos uns com os outros, é uma prerrogativa que, de modo algum, poderá ser menosprezada e muito menos esquecida pela sociedade ou comunidade a que a escola pertence. A escola deve, por conseguinte, assumir o dever estruturante da definição de valores, normas e regras que lhe permitirão cumprir o seu destino educativo: ajudar as crianças e jovens que a frequentam a crescer, equilibrada e globalmente, com aquilo que lhes ensina.

O problema que deveremos colocar não está ligado à necessidade das regras, dos valores e dos deveres (mal estaríamos se o estivesse). O problema diz respeito às próprias regras, aos valores, aos deveres e aos objectivos, metas e finalidades que se deseja para a escola e para a educação.

Todos sabemos que o desrespeito pela lei torna a acção ilegal. Mas deveremos obediência a uma lei iníqua, emitida pelo órgão com poder legislador de um qualquer país, instituição ou organização? Deveremos respeito a normas que em nada contribuam para a elevação individual e colectiva ou, pior, que a inibam? Deveremos gastar o poder normativo e normalizador, competência de adultos e educadores, para disciplinar comportamentos, que lhes são estranhos na sua estranheza e diferença ou porque são eticamente inaceitáveis ao violarem valores fundantes do nosso modo humano de ser, pensar, dizer e fazer: a liberdade, o respeito, a solidariedade e a tolerância? Deveremos, enquanto professores e educadores, disciplinar modos de ser, pensar, dizer e fazer infantis, adolescentes ou outros segundo uma ideia de sociedade que habitamos?

Deveremos disciplinar? Deveremos normalizar? Deveremos penalizar?

O caso passou-se vai para vinte e cinco anos numa escola de uma zona classe A de Lisboa, numa turma do 10º ano. A turma era constituída por bons alunos, muito jovens e … barulhentos. Não era fácil trabalhar com eles. Na disciplina de Físico-Química a professora, cansada certamente do ruído que os alunos faziam, todos os dias mostrava o seu desgosto pelo facto de os alunos não se calarem. Passadas semanas, sem que nada o fizesse suspeitar, na aula de Físico-Química os alunos permaneceram calados, absolutamente calados, mesmo quando solicitados directamente pela professora, durante toda a aula. O resultado já o sabemos: a professora não conseguiu dar a aula e mergulhou num choro desesperado na sala de professores. Os alunos estavam radiantes porque “mesmo a Leonor (nome fictício) não respondeu às perguntas da professora” (A Leonor era uma menina sentada na primeira carteira frente ao professor, sempre muito atenta e calada).
O ano restante continuou sem problemas assinaláveis.

A indisciplina manifesta-se de muitas maneiras.
Ou não será indisciplina?

Como lidar com situações como esta?
Porque não aconteceu nas outras disciplinas da turma?
Porquê, porquê, porquê?