Há 40 anos foi também Gente de Aqui e de Agora de Adriano Correia de Oliveira com roseira brava roseira lá dentro e outras delícias que gostávamos de gostar.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
1971 - 40 anos
Há 40 anos foi também Os sobreviventes de Sérgio Godinho e o Que força é essa.
Eram os tempos em que a esperança desafiava o medo e se vestia de coragem.
E havia alguns a cantar.
domingo, 11 de setembro de 2011
1971 - 40 anos
Continuamos o regresso a 1971 – 40 anos com Queixas das almas jovens censuradas de José Mário Branco e Natália Correia, aqui numa versão ao vivo.
Basta fechar os olhos e ouvir as cores com que fomos pintando a noite.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Regresso
Há 40 anos foram editados cinco discos marcantes para a música popular e de intervenção portuguesa: Cantigas do Maio de José Afonso, Mudam-se os tempos mudam-se as vontades de José Mário Branco, Os sobreviventes de Sérgio Godinho, Movimento perpétuo de Carlos Paredes e Gente de aqui e de agora de Adriano Correia de Oliveira.
Começo por um dos mais belos discos publicados em língua portuguesa. Dele escolho a canção que emocionou minha mãe e meu pai quando lha cantei pela primeira vez à lareira das férias de Natal de 1973 – Cantigas do Maio.
Que o sonho se cumpra!
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
1971 - 40 anos
Há 40 anos foi A tua presença de Maria Bethânia, abrindo com Janelas abertas 2 do mano Caetano, aqui integrada no documentário de Kurt Gfeller, realizado também há 40 anos.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Ensinar e aprender
Li esta entrevista no Terrear e, porque gosto muito de ver cientistas de áreas exteriores às ciências sociais e humanas pronunciarem-se sobre domínios pedagógicos e educativos e, o máximo de desplante para alguns pensadores da nossa praça, afirmar que “podemos e devemos tratar a educação como uma ciência”, aqui fica para gáudio e/ou perplexidade dos leitores e visitantes do Nós.
Gazeta de Física - É verdade que os seus alunos costumam atribuir-lhe boas notas? E como consegue isso?Eric Mazur - Quando comecei a ensinar, em 1984, ensinava tal como eu próprio tinha sido ensinado. Afinal, que outras formas há de ensinar? É natural, foi como nós aprendemos e, além disso, temos tendência para projectar a nossa própria experiência nas pessoas que nos rodeiam. O que pensamos é: "Eu aprendi assim e, por isso, eles também devem aprender assim". Ao fazer isto, acho que se cometem dois erros. Se olhar para a forma como fui ensinado percebo que aprendi, não devido a esse ensino, mas apesar dele.
P. - Como é que mudou os seus métodos de trabalho?
R. - Não mudei imediatamente porque considerava que estava a ensinar bem. Os meus alunos tinham boas classificações nos exames e também me atribuíam boas notas no inquérito final de avaliação dos professores...
P. - Então o método tradicional funcionava bem...
R. - Tinha quatro e meio numa escala de cinco. Era a nota mais alta na área de Física.
P. - Em suma, os alunos estavam satisfeitos e o professor
também...
R. - Exactamente! E era por isso mesmo que eu achava que estava a fazer um bom trabalho. Seis anos mais tarde, colegas da Califórnia mostraram-me artigos sobre testes com questões muito fáceis. Por exemplo: "Um carro colide com um camião. A força exercida pelo camião sobre o carro é maior ou menor que a força do carro sobre o camião?". A confusão era grande.
(...)
P. - Como é que mudou os seus métodos de trabalho?
R. - Não mudei imediatamente porque considerava que estava a ensinar bem. Os meus alunos tinham boas classificações nos exames e também me atribuíam boas notas no inquérito final de avaliação dos professores...
P. - Então o método tradicional funcionava bem...
R. - Tinha quatro e meio numa escala de cinco. Era a nota mais alta na área de Física.
P. - Em suma, os alunos estavam satisfeitos e o professor
também...
R. - Exactamente! E era por isso mesmo que eu achava que estava a fazer um bom trabalho. Seis anos mais tarde, colegas da Califórnia mostraram-me artigos sobre testes com questões muito fáceis. Por exemplo: "Um carro colide com um camião. A força exercida pelo camião sobre o carro é maior ou menor que a força do carro sobre o camião?". A confusão era grande.
(...)
Devo salientar dois pontos. O primeiro é que a educação é mais do que transferência de informação, é um processo em que desenvolvemos um modelo mental para assimilar essa informação. Mas numa aula convencional não há tempo para pensar, espera-se que essa assimilação seja feita após a aula. O segundo ponto tem a ver com as tecnologias de informação. Não estou a falar de computadores mas da invenção de Gutenberg, há quinhentos anos.
P. - Os livros.
R. - Sim, mas antes de haver livros a transmissão de conhecimentos de uma geração para a outra era feita oralmente, como hoje nas aulas. Depois vieram os livros, e os livros são uma boa fonte de informação, mas passámos a lê-los aos alunos nas aulas. É ridículo! Se eu fosse professor de Literatura, por exemplo, não diria aos alunos que na aula seguinte iríamos ler “Sonho de uma Noite de Verão” mas sim que o lessem antes da aula. Assim, decidi que a primeira coisa que iria fazer seria retirar a transferência de informação da sala de aula. O que agora faço é dizer aos meus alunos que estudem um assunto em casa para posteriormente o discutirmos na aula.
P. - Os livros.
R. - Sim, mas antes de haver livros a transmissão de conhecimentos de uma geração para a outra era feita oralmente, como hoje nas aulas. Depois vieram os livros, e os livros são uma boa fonte de informação, mas passámos a lê-los aos alunos nas aulas. É ridículo! Se eu fosse professor de Literatura, por exemplo, não diria aos alunos que na aula seguinte iríamos ler “Sonho de uma Noite de Verão” mas sim que o lessem antes da aula. Assim, decidi que a primeira coisa que iria fazer seria retirar a transferência de informação da sala de aula. O que agora faço é dizer aos meus alunos que estudem um assunto em casa para posteriormente o discutirmos na aula.
P. - E os alunos fazem isso?
R. - Têm de fazer. Esse trabalho representa 20 por cento da nota final. Mas voltemos atrás. Uma vez estudado determinado assunto, posso explicar aos alunos o seu significado.
P. - A chamada aprendizagem conceptual.
R. - Exactamente. E faço-o usando uma técnica a que chamamos"Peer Instruction".
P. - Mas essa técnica não é nova...
R. - Não, de facto não se trata de uma novidade mas eu também não sabia nada da literatura especializada sobre a aprendizagem colaborativa... Só conhecia Sócrates! O que se passou numa aula foi o seguinte. Estava a discutir o teste conceptual com alguns alunos e a tentar explicar
alguns problemas. Expliquei-os durante dez minutos e percebi pelas expressões deles que não estavam a entender.
Pelo contrário, estavam ainda mais confusos. Eu não sabia o que fazer, não sabia explicar melhor. Resolvi então dizer-lhes para discutirem as suas dúvidas com o colega do lado e fiquei surpreendido com a agitação que se criou. De repente estavam todos a falar uns com os outros.
Decidi formalizar este procedimento e o que faço hoje em dia é isso mesmo. Digo aos alunos para estudarem antes da aula, depois faço uma breve introdução (não mais de cinco minutos senão eles adormecem) e coloco uma pergunta (a que chamo teste conceptual) no retroprojector.
São perguntas conceptuais que não se podem resolver por equações. Por exemplo, há um barco no lago com uma pedra dentro. Se tirarmos a pedra o que acontece ao nível da água do lago? É uma questão contra-intuitiva, temos de perceber bem o Princípio de Arquimedes. Os alunos têm um minuto para pensar sobre a pergunta e em seguida votam na opção que consideram correcta (uso cartões com as letras A, B, C, etc.).
(...)
P. - E qual é o papel que resta para o professor?
R. - O professor é o treinador. Concluindo, os alunos discutem o problema durante mais dois minutos e votam novamente. O que acontece é incrível: o número de respostas correctas aumenta consideravelmente. E no final do semestre a aprendizagem conceptual também melhorou.
(..)
P. - O senhor é um cientista, um físico, e agora está envolvidoem pedagogia. Acha que a educação é uma ciência, no sentido tradicional da palavra?
R. - Tenho que lhe dizer que fiquei fascinado com a pedagogia e a psicologia do ensino-aprendizagem e passei a respeitar muito mais os meus colegas do departamento de Psicologia. É uma ciência? Penso que podemos e devemos tratar a educação como uma ciência. Eu encaro
os dados das minhas experiências laboratoriais da mesma maneira que trato os resultados das minhas aulas, que também são um laboratório.
in Gazeta de Física
P. - A chamada aprendizagem conceptual.
R. - Exactamente. E faço-o usando uma técnica a que chamamos"Peer Instruction".
P. - Mas essa técnica não é nova...
R. - Não, de facto não se trata de uma novidade mas eu também não sabia nada da literatura especializada sobre a aprendizagem colaborativa... Só conhecia Sócrates! O que se passou numa aula foi o seguinte. Estava a discutir o teste conceptual com alguns alunos e a tentar explicar
alguns problemas. Expliquei-os durante dez minutos e percebi pelas expressões deles que não estavam a entender.
Pelo contrário, estavam ainda mais confusos. Eu não sabia o que fazer, não sabia explicar melhor. Resolvi então dizer-lhes para discutirem as suas dúvidas com o colega do lado e fiquei surpreendido com a agitação que se criou. De repente estavam todos a falar uns com os outros.
Decidi formalizar este procedimento e o que faço hoje em dia é isso mesmo. Digo aos alunos para estudarem antes da aula, depois faço uma breve introdução (não mais de cinco minutos senão eles adormecem) e coloco uma pergunta (a que chamo teste conceptual) no retroprojector.
São perguntas conceptuais que não se podem resolver por equações. Por exemplo, há um barco no lago com uma pedra dentro. Se tirarmos a pedra o que acontece ao nível da água do lago? É uma questão contra-intuitiva, temos de perceber bem o Princípio de Arquimedes. Os alunos têm um minuto para pensar sobre a pergunta e em seguida votam na opção que consideram correcta (uso cartões com as letras A, B, C, etc.).
(...)
P. - E qual é o papel que resta para o professor?
R. - O professor é o treinador. Concluindo, os alunos discutem o problema durante mais dois minutos e votam novamente. O que acontece é incrível: o número de respostas correctas aumenta consideravelmente. E no final do semestre a aprendizagem conceptual também melhorou.
(..)
P. - O senhor é um cientista, um físico, e agora está envolvido
R. - Tenho que lhe dizer que fiquei fascinado com a pedagogia e a psicologia do ensino-aprendizagem e passei a respeitar muito mais os meus colegas do departamento de Psicologia. É uma ciência? Penso que podemos e devemos tratar a educação como uma ciência. Eu encaro
os dados das minhas experiências laboratoriais da mesma maneira que trato os resultados das minhas aulas, que também são um laboratório.
in Gazeta de Física
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Exortação - Talvez Poema
Porque te curvas no olhar entupido pela sombra
que te tolhe os passos?
Porque te afliges no grito que te embarga a voz
nos gestos que habitas?
Porque te escapas na memória que já não anima o sonho
dos frutos que semeaste?
És homem!
És meu amigo!
Por mais que te escondas no capote da tua ausência
habitas ainda os olhares em que mergulhaste
e construíste sonhos incertos pintados de arco-íris.
Ergue-te!
És meu amigo!
Olha as estrelas e vê o espelho da tua presença
Faz-te nos passos sem mágoa que te empurram além do abismo
Abraça-te nos gestos que te aquecem a alma além do infinito
Acolhe-te no regaço dos abraços que te amam além de ti e ama
Ama além do horizonte e vai aonde te levar o sonho
que te palpita nas mãos abertas como asas de borboleta
que te hão-de levar ao mundo que inventares
Olha além de ti e vê-te na inquietude dos garimpeiros do silêncio
buscando-se na força da palavra com que respiram a esperança
como maresia ardendo no peito de náufragos sem destino.
És meu amigo!
Vive!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Excelentíssimo(s) ano(s)
Para os meus amigos e para todos os que, de uma forma ou de outra, habitam os caminhos que vamos percorrendo ano após ano.
Que o sonho se cumpra!
Que o sonho se cumpra!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
1970 - 40 anos
Há 40 anos Michel Foucault dava a sua Leçon inaugurale au Collège de France com o título L’Ordre du discours.
Eis um pequeno excerto de homenagem antes que o ano termine dado que não é o momento de exprimir o reconhecimento da importância do seu filosofar para a formação do pensar de muitos de nós que tacteávamos entre perplexidades e equívocos, entre rebeldias e revoluções, entre a razão, o inconsciente e muitas outras aventuras.
“[…] A educação pode muito bem ser, de direito, o instrumento graças ao qual todo o indivíduo, numa sociedade como a nossa, pode ter acesso a qualquer tipo de discurso ; sabemos no entanto que, na sua distribuição, naquilo que permite e naquilo que impede, ela segue as linhas que são marcadas pelas distâncias, pelas oposições e pelas lutas sociais. Todo o sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que estes trazem consigo.
Eis um pequeno excerto de homenagem antes que o ano termine dado que não é o momento de exprimir o reconhecimento da importância do seu filosofar para a formação do pensar de muitos de nós que tacteávamos entre perplexidades e equívocos, entre rebeldias e revoluções, entre a razão, o inconsciente e muitas outras aventuras.
“[…] A educação pode muito bem ser, de direito, o instrumento graças ao qual todo o indivíduo, numa sociedade como a nossa, pode ter acesso a qualquer tipo de discurso ; sabemos no entanto que, na sua distribuição, naquilo que permite e naquilo que impede, ela segue as linhas que são marcadas pelas distâncias, pelas oposições e pelas lutas sociais. Todo o sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que estes trazem consigo.
Eu sei perfeitamente que a separação que tenho vindo a fazer entre rituais da fala, sociedades de discurso, grupos doutrinários e apropriações sociais, é demasiado abstracta.
Na maior parte das vezes estão ligados uns aos outros e são como grandes edifícios que asseguram a distribuição dos sujeitos falantes nos diferentes tipos de discurso e asseguram a apropriação dos discursos a certas categorias de sujeitos. Numa palavra, são os grandes procedimentos de sujeição do discurso. O que é, no fim de contas, um sistema de ensino senão uma ritualização da fala, senão uma qualificação e uma fixação dos papéis dos sujeitos falantes; senão a constituição de um grupo doutrinal, por difuso que seja; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com os seus poderes e os seus saberes? O que é a "escrita" (a dos "escritores") senão um sistema de sujeição semelhante, que assume talvez formas um pouco diferentes, mas em que as grandes decomposições são análogas? Será que o sistema jurídico, o sistema institucional da medicina, também eles, pelo menos em alguns dos seus aspectos, não são sistemas semelhantes de sujeição do discurso?"
domingo, 26 de dezembro de 2010
Para os meus amigos
Era o seu primeiro Natal . Escrevi para ela o pequeno texto que agora dedico também a todos os meus amigos que não desistiram de ser crianças. Feliz Natal!
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, hás-de ler esta carta. Regressarás, então, à festa do teu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foste recebida no calor do afecto daqueles que te amam e, em ti, regressaram eles também ao seu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foram recebidos no calor do afecto daqueles que os amavam. Recordarás, então, a lareira, as filhós, os doces, os aromas, os sabores, os manjares, o presépio, a festa, o encontro. E abrirás os olhos ao sorriso que te há-de inundar a alma na memória que da festa e do encontro se há-de fazer. E sorrirás também quando o silêncio te encaminhar para o mais profundo e íntimo encontro de que és capaz: tu própria. Tu e as memórias que te habitam. Tu e os sonhos que te fazem. Descobrirás o arco-íris e com ele iluminarás as pontes que hás-de construir sobre os rios que hás-de atravessar. Nele viajarás até às estrelas e nelas hás-de morar com o sonho que te habitar. Descobrirás, então, que a estrela és tu e apenas em ti, no mais fundo, puro e íntimo silêncio de ti encontrarás tudo o resto: tudo o que pensaste e hás-de pensar, tudo o que fizeste e hás-de fazer, tudo o que disseste e hás-de dizer, tudo o que foste e hás-de ser. Viajarás, então, pura e leve, nas asas do tempo, tecidas de luz. E gostarás! Gostarás da infinita vertigem do voo íntimo e claro que te há-de revelar. E desejarás nunca quebrar o encanto que te ilumina o olhar, nunca deixar de voar em ti para além de ti. Descobrirás que a viagem se faz no silêncio íntimo do encontro com o sonho que nos habita, que toda a viagem se faz no regresso aos rostos que nos habitam o silêncio. Descobrirás o sol e a lua, a luz e a sombra. A tua sombra. Com ela viajarás sempre. Hás-de amá-la como amarás o rosto inquieto do amor que te há-de invadir. Com ela habitarás o silêncio e a memória, com ele vestirás os dias de arco-íris. E gostarás. E sorrirás aos rostos que te habitam o silêncio e neles te encontrarás. Neles descobrirás o outro e os valores que fazem da diferença a razão de ser homem e mulher: a liberdade, a solidariedade, a tolerância, o respeito. E serás feliz!
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, há-de haver a festa do primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, o teu sonho será recebido no calor do afecto dos que o amam. E nós, que te amamos e contigo regressámos ao primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, fomos recebidos no calor do afecto dos que nos amavam, sorriremos encantados. Felizes. Como tu.
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, hás-de ler esta carta. Regressarás, então, à festa do teu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foste recebida no calor do afecto daqueles que te amam e, em ti, regressaram eles também ao seu primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, foram recebidos no calor do afecto daqueles que os amavam. Recordarás, então, a lareira, as filhós, os doces, os aromas, os sabores, os manjares, o presépio, a festa, o encontro. E abrirás os olhos ao sorriso que te há-de inundar a alma na memória que da festa e do encontro se há-de fazer. E sorrirás também quando o silêncio te encaminhar para o mais profundo e íntimo encontro de que és capaz: tu própria. Tu e as memórias que te habitam. Tu e os sonhos que te fazem. Descobrirás o arco-íris e com ele iluminarás as pontes que hás-de construir sobre os rios que hás-de atravessar. Nele viajarás até às estrelas e nelas hás-de morar com o sonho que te habitar. Descobrirás, então, que a estrela és tu e apenas em ti, no mais fundo, puro e íntimo silêncio de ti encontrarás tudo o resto: tudo o que pensaste e hás-de pensar, tudo o que fizeste e hás-de fazer, tudo o que disseste e hás-de dizer, tudo o que foste e hás-de ser. Viajarás, então, pura e leve, nas asas do tempo, tecidas de luz. E gostarás! Gostarás da infinita vertigem do voo íntimo e claro que te há-de revelar. E desejarás nunca quebrar o encanto que te ilumina o olhar, nunca deixar de voar em ti para além de ti. Descobrirás que a viagem se faz no silêncio íntimo do encontro com o sonho que nos habita, que toda a viagem se faz no regresso aos rostos que nos habitam o silêncio. Descobrirás o sol e a lua, a luz e a sombra. A tua sombra. Com ela viajarás sempre. Hás-de amá-la como amarás o rosto inquieto do amor que te há-de invadir. Com ela habitarás o silêncio e a memória, com ele vestirás os dias de arco-íris. E gostarás. E sorrirás aos rostos que te habitam o silêncio e neles te encontrarás. Neles descobrirás o outro e os valores que fazem da diferença a razão de ser homem e mulher: a liberdade, a solidariedade, a tolerância, o respeito. E serás feliz!
Um dia, quando eu já for velhinho e a alvura me vestir o rosto, há-de haver a festa do primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, o teu sonho será recebido no calor do afecto dos que o amam. E nós, que te amamos e contigo regressámos ao primeiro Natal, aquele em que, pela primeira vez, fomos recebidos no calor do afecto dos que nos amavam, sorriremos encantados. Felizes. Como tu.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Aos amigos
Que a amizade
seja a força que anima
o tempo incerto
que habita os dias
em que inventamos o sonho
que nos faz humanos.
-----
Feliz Natal para os amigos
e para todos os que por este cantinho
vão passando sem deixar sua pegada
seja a força que anima
o tempo incerto
que habita os dias
em que inventamos o sonho
que nos faz humanos.
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Feliz Natal para os amigos
e para todos os que por este cantinho
vão passando sem deixar sua pegada
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Para a mãe
Quando o dia da mãe ainda não estava sujeito ao calendário das compras comemorava-se no dia em que o calendário católico festeja a "Imaculada Concepção" - 8 de Dezembro.
Também comemoro a nova data mas em 8 de Dezembro aqueço a alma no regaço da memória de minha mãe. Não é pouco!
1.
A mãe olha-nos sem cansaço,
Também comemoro a nova data mas em 8 de Dezembro aqueço a alma no regaço da memória de minha mãe. Não é pouco!
1.
A mãe olha-nos sem cansaço,
envolve-nos na ternura do abraço
do seu olhar
e em cada abraço seu
adormecemos
adormecemos
outra vez no ninho do regaço
de que nascemos.
Mais do que a vida de que nascemos
a mãe olha-nos
e em cada olhar seu nascemos
outra vez
outra vez
porque no olhar da mãe
nasce e renasce o amor
que nos fez.
2.
A mãe recebe o filho do berço
envolve-o no peito
e fala-lhe em silêncio
enquanto lhe beija a testa
e acaricia a cabecita loura
nos seus cabelos ralos
com o sorriso do seu olhar.
O seu menino agradece-lhe
no sorriso encantado
que faz a mãe sentir-se mãe
e o pai – que os olha embevecido –
sentir-se pai
(já que não pode ser mãe).
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Para o meu pai
No dia em que meu pai morreu não chorei;
ainda a ausência não se anunciara irreversível.
Chorei mais tarde quando a memória já não era capaz
de guardar a ausência no canto da alma
que meu pai habitava.
O tempo
- esse insidioso embrulho dos dias –
secou-me as lágrimas
e adoçou, na mais pura candura do gesto inocente,
a memória dos dias que não tivemos.
Hoje recordo a notícia insuspeita dessa noite sombria
e, apaziguado, alimento a memória
nos sonhos que meu pai gosta de me ver.
E sorrio.
E vejo-o sorrindo
no encantamento do olhar iluminado
saltando do rosto envelhecido.
Soltam-se-me as lágrimas.
Com elas rego a memória com que faço
os sonhos do tempo que habito.
E sorrimos.
ainda a ausência não se anunciara irreversível.
Chorei mais tarde quando a memória já não era capaz
de guardar a ausência no canto da alma
que meu pai habitava.
O tempo
- esse insidioso embrulho dos dias –
secou-me as lágrimas
e adoçou, na mais pura candura do gesto inocente,
a memória dos dias que não tivemos.
Hoje recordo a notícia insuspeita dessa noite sombria
e, apaziguado, alimento a memória
nos sonhos que meu pai gosta de me ver.
E sorrio.
E vejo-o sorrindo
no encantamento do olhar iluminado
saltando do rosto envelhecido.
Soltam-se-me as lágrimas.
Com elas rego a memória com que faço
os sonhos do tempo que habito.
E sorrimos.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
1970 - 40 anos
Há 40 anos foi Let it Be.
Os Beatles em seus derradeiros acordes
e (des)encantamentos.
So, let it be!
Os Beatles em seus derradeiros acordes
e (des)encantamentos.
So, let it be!
Talvez Poema
Olho-me no teu olhar e maldigo
aqueles que te roubaram o sorriso
na dor dos que te morreram
sem causa e sem sentido
Olho-te e maldigo aqueles
que te incendiaram a alma
com o grito desmedido
das bombas de fome e de sangue
no horror sem nome dos que te mataram
sem razão e sem destino.
Olho-me na tua dor
e morrem-me os dias claros
perfumados de bela-luz e rosmaninho
entre giestas e carvalhos
em que inventávamos sonhos
nas margens encantadas da minha aldeia.
O que te fizemos, menina de Bagdad,
nas mil e uma noites feridas de morte e desencanto?
De que te vestimos, menino da minha aldeia,
esvaziado sem pudor de sonhos e fantasias sem par?
aqueles que te roubaram o sorriso
na dor dos que te morreram
sem causa e sem sentido
Olho-te e maldigo aqueles
que te incendiaram a alma
com o grito desmedido
das bombas de fome e de sangue
no horror sem nome dos que te mataram
sem razão e sem destino.
Olho-me na tua dor
e morrem-me os dias claros
perfumados de bela-luz e rosmaninho
entre giestas e carvalhos
em que inventávamos sonhos
nas margens encantadas da minha aldeia.
O que te fizemos, menina de Bagdad,
nas mil e uma noites feridas de morte e desencanto?
De que te vestimos, menino da minha aldeia,
esvaziado sem pudor de sonhos e fantasias sem par?
(In)comunicação burocrática na escola - 1.2 Limites e disfunções da burocracia
Os limites do modelo burocrático dependem fundamentalmente na sua entrópica incapacidade de se adaptar à mudança e de lutar contra a incerteza em resultado da sua extrema formalização e regulamentação através das regras impessoais e dos documentos escritos que continuamente produz. A burocracia assenta em tarefas que passam à rotina, perdendo a capacidade de auto-correcção (Crozier). Como consequência desta incapacidade, o modelo burocrático vai ter necessidade de combater as disfunções que ele próprio criou. Assim, vão surgir comportamentos não previstos nos regulamentos, conflitos entre sub-grupos, estratégias de controlo (nas repartições e níveis hierárquicos e funcionais), que conduzem à perda da unidade processual e a um certo entorpecimento dos funcionários; além disso, poderá haver "deslocação dos objectivos" e "ritualismo dos funcionários" (Merton), rotina, etc. Ora, a superação destas disfunções faz-se, dada a incapacidade de a organização burocrática se abrir ao exterior e à mudança, através da produção de novas regras impessoais, do reforço do controlo e centralização das decisões, isolamento dos estratos hierárquicos com reforço da identificação no grupo e maior pressão dos indivíduos nesses quadros (as diferentes categorias tendem a acentuar o seu isolamento e a comunicar cada vez menos entre si de modo a proteger o grupo e o poder que ele detém). Este processo é acompanhado do desenvolvimento do poder paralelo de forma a poder responder ao aumento das regras e normas impessoais. É o "círculo vicioso burocrático" (Crozier; Merton ref. por Freire 1993: 145) que Gouldner caracteriza de uma forma mais simples sendo, também, de âmbito mais restrito: a um abaixamento da motivação do pessoal que o modelo provoca segue-se o desencadeamento de vigilâncias mais atentas; estas vão originar o aparecimento de tensões e a consequente perda de eficácia e funcionalidade às quais a organização responde com a produção de novas regras e normas impessoais para fazer baixar essas tensões; as novas regras e normas vão provocar nova baixa de motivação com o consequente aumento de vigilâncias mais atentas, etc., etc. num processo que só termina quando o modelo burocrático já não conseguir resistir à mudança. Adopta, então, a mudança que lhe é típica: a "mudança em crise" (Freire, 1993: 146): conduzida de cima para baixo, habitualmente acompanhada de perturbações graves e do reforço da iniciativa e poder pessoal, decisões arbitrárias e autocráticas até ao seu ponto de funcionamento normal. Até que nova crise se manifeste e seja obrigada a mudar. "A crise é, pois, a forma própria e particular de mudança de uma organização de tipo burocrático" (Idem, p. 146).
(In)comunicação burocrática na escola - 1.1 Características principais das organizações burocráticas
1. A definição de competências, dos deveres, dos direitos e da hierarquia da autoridade é feita através de regras fixas e impessoais, ou seja, por leis e regulamentos administrativos;
2. A divisão do trabalho e a hierarquia da autoridade é baseada na especialização funcional e na subordinação na qual se exerce um controlo legal dos graus inferiores pelos superiores;
3. A gestão da organização utiliza predominantemente documentos escritos nas comunicações intra-burocráticas que são conservados em arquivos;
4. O funcionamento da organização repousa sobre a clara separação entre a actividade dos funcionários e a sua vida privada;
5. O desempenho das funções administrativas burocráticas pressupõe uma formação profissional avançada dos funcionários que são seleccionados para o emprego e promoção com base nas suas competências técnicas;
6. As funções administrativas, ao contrário do que acontecia tradicionalmente nos modelos paternalistas e carismáticos, passaram a ser desempenhadas "a tempo inteiro";
7. O funcionamento de uma organização burocrática obedece a regras gerais, formais e impessoais. O seu conhecimento representa uma aprendizagem técnica especializada. É também uma fonte de poder;
8. A autoridade baseia-se na repartição: "as ordens são executadas porque os regulamentos estabelecem que está dentro da competência normal de uma repartição dar essas ordens". (Pugh et al., cit. in Worsley, 1977, p. 305);
2. A divisão do trabalho e a hierarquia da autoridade é baseada na especialização funcional e na subordinação na qual se exerce um controlo legal dos graus inferiores pelos superiores;
3. A gestão da organização utiliza predominantemente documentos escritos nas comunicações intra-burocráticas que são conservados em arquivos;
4. O funcionamento da organização repousa sobre a clara separação entre a actividade dos funcionários e a sua vida privada;
5. O desempenho das funções administrativas burocráticas pressupõe uma formação profissional avançada dos funcionários que são seleccionados para o emprego e promoção com base nas suas competências técnicas;
6. As funções administrativas, ao contrário do que acontecia tradicionalmente nos modelos paternalistas e carismáticos, passaram a ser desempenhadas "a tempo inteiro";
7. O funcionamento de uma organização burocrática obedece a regras gerais, formais e impessoais. O seu conhecimento representa uma aprendizagem técnica especializada. É também uma fonte de poder;
8. A autoridade baseia-se na repartição: "as ordens são executadas porque os regulamentos estabelecem que está dentro da competência normal de uma repartição dar essas ordens". (Pugh et al., cit. in Worsley, 1977, p. 305);
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(In)comunicação burocrática,
1.1 características,
1969-40 anos
sábado, 13 de novembro de 2010
1970 - 40 anos
Em Novembro apareeceu The man who sold the world de David Bowie.
As radios continuam a passar a versão dos Nirvana mas Cobain tinha apenas três anos quando o "camaleão" a gravou...
As radios continuam a passar a versão dos Nirvana mas Cobain tinha apenas três anos quando o "camaleão" a gravou...
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Talvez Poema
Regresso à minha aldeia.
Bem sei da irreversibilidade do tempo
– esse algoz das noites brancas – mas
deixem-me saudar a primavera no canto do cuco
e os pés descalços na terra fumegante do primeiro arado;
deixem-me acordar as manhãs
no balido das ovelhas do Ti António
e correr vinhedos e pinhais
nas encostas barrentas do outeiro;
deixem-me cavalgar a ribeira
em correrias salpicadas de risos inocentes;
deixem-me mergulhar no regaço quente de minha mãe
e na doçura disfarçada do sorriso no olhar de meu pai;
deixem-me regressar a mim.
Prometo não me perder.
Bem sei da irreversibilidade do tempo
– esse algoz das noites brancas – mas
deixem-me saudar a primavera no canto do cuco
e os pés descalços na terra fumegante do primeiro arado;
deixem-me acordar as manhãs
no balido das ovelhas do Ti António
e correr vinhedos e pinhais
nas encostas barrentas do outeiro;
deixem-me cavalgar a ribeira
em correrias salpicadas de risos inocentes;
deixem-me mergulhar no regaço quente de minha mãe
e na doçura disfarçada do sorriso no olhar de meu pai;
deixem-me regressar a mim.
Prometo não me perder.
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