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quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Je suis malade"

Enquanto a viagem iniciática do jovem estudante que foi para Paris trabalhar nas férias não avança, vale a pena voltar a uma das mais bonitas canções de amor em língua francesa: "Je suis malade". Esta versão tem ainda um encanto suplementar: mostra quão importante é a presença e o estímulo daqueles que admiramos e, hélas!, que imitamos! Daqueles, enfim, que nos servem de referência e de modelo. Os nossos heróis, aqueles que, de uma forma ou de outra, nos habitam ou habitaram os sonhos e a memória. Daqueles que nos fazem ou fizeram sorrir a alma de espanto, de respeito e de admiração.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

14 de Julho

Hoje apetece-me regressar à "gare d'Austerlitz" e cheirar, como nessa primeira vez, os cheiros que se soltavam do Sena e do “jardin du Roi”, ali ao lado, e do “bois de Vincennes”, um pouco mais afastado, e ouvir, com o mesmo encantamento de então, a musicalidade do falar parisiense. Era 74, estava fresca a primavera perfumada de cravos nesse Junho em Paris. Apetecia vestir a bandeira que nos identificava de novo. Éramos jovens, muito jovens. E sonhávamos, sonhávamos muito. Especialmente em Paris, permanente memória da liberdade, da igualdade, da fraternidade que lêramos nos compêndios de história e em livros mais ou menos clandestinos.
Nesse fim de tarde de Junho não fugia de nada. Não havia nada de que fugir. Era a necessidade de manter-me estudante em Lisboa que exigia proventos extra: fui trabalhar. Trabalhar ao ritmo dos emigrantes que foram anos antes "de salto" para a terra das "valises", das "auto-routes", dos "batiments", das bièrres", dos "bidonvilles", dos “birús”, dos “congés payés” e de todos os modos de ser e de viver que apenas conheciam pelo nome da terra onde foram parar. Donde partiram não havia nomes porque não havia coisas. Essas coisas apenas lá as conheceram pelo nome que então aprenderam. E para a sua terra as trouxeram. Vaidosos, orgulhosos exibiam as novas coisas nos nomes que apenas eles conheciam e não conseguiam traduzir. Não conseguiam fazer-se entender. Por isso, foram ridicularizados. Por isso, foram os "avecs" e as suas "valises".
Era miúdo. Lembro-me muitíssimo bem da primeira vez que o primeiro emigrante regressou à minha aldeia para tratar dos documentos na sede do concelho com que se havia de legalizar em França. A meio da tarde entrou na taberna, onde estavam os proprietários que meses antes lhe pagavam uma miséria para trabalhar nos seus campos, bateu sorridente com a mão no balcão e disse alto para que fosse bem ouvido: "Bièrre para todo o mundo". Era a sua assinatura. A sua afirmação. A sua emancipação. Também o seu poder, claro. Doravante, era ele quem podia pagar "bièrre" a todos, mesmo àqueles que meses antes eram seus patrões. Que melhor eco da Bastilha no granito beirão?!
Hoje, 14 de Julho, apetece-me regressar a Paris na musicalidade da sua língua, e nas palavras na música de alguns dos que mais aprecio.
Hoje, apetece-me ir “de crisantèmes en crisantèmes” com Brel. Outras viagens havemos de fazer. Allons-y.