quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
1969 - 40 anos
Há 40 anos foi Bridge over troubled waters ao vivo e a indispensabilidade dos amigos.
Para eles este hino.
Para que o ano que está a nascer se faça de pontes e de abraços, de pontes que são abraços.
When you're weary, feeling small
When tears are in your eyes,
I will dry them all
I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you
I'll take your part
When darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Sail on silver girl
Sail on by
Your time has come to shine
All your dreams are on their way
See how they shine
When you need a friend
I'm sailing right behind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Para eles este hino.
Para que o ano que está a nascer se faça de pontes e de abraços, de pontes que são abraços.
When you're weary, feeling small
When tears are in your eyes,
I will dry them all
I'm on your side
When times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
When you're down and out
When you're on the street
When evening falls so hard
I will comfort you
I'll take your part
When darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Sail on silver girl
Sail on by
Your time has come to shine
All your dreams are on their way
See how they shine
When you need a friend
I'm sailing right behind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind
Mendelsshon
Antes que o ano termine, homenagem a Mendelsshon numa das suas mais brilhantes composições.
No segundo centenário do seu nascimento e por nos ter mostrado o génio de Bach.
No segundo centenário do seu nascimento e por nos ter mostrado o génio de Bach.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Talvez Poema
Para os meus amigos neste fim de ano e início de outro com tudo o que desejarem.
Vivam os amigos!
--
12.
Amigos
Os amigos amparam-nos
os passos
que a vida nos dá
Invadem-nos os dias
como rizomas subterrâneos
que – sabemo-lo bem – brotarão
em flor
no tempo oportuno
Os amigos regam-nos
o sorriso
que a vida nos dá
Escolhem-nos como sua morada
e habitam-nos o silêncio
dos dias sombrios em que a solidão
se torna o espelho
que já não nos reconhece
Os amigos não morrem
somos nós que morremos
na morte deles
Vivam os amigos!
--
12.
Amigos
Os amigos amparam-nos
os passos
que a vida nos dá
Invadem-nos os dias
como rizomas subterrâneos
que – sabemo-lo bem – brotarão
em flor
no tempo oportuno
Os amigos regam-nos
o sorriso
que a vida nos dá
Escolhem-nos como sua morada
e habitam-nos o silêncio
dos dias sombrios em que a solidão
se torna o espelho
que já não nos reconhece
Os amigos não morrem
somos nós que morremos
na morte deles
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
1969 – 40 anos
Agora que o ano e a década se precipitam para o seu fim deliciemo-nos com algumas das músicas que aqueceram corpos e almas que se atropelavam em garagens e festas entre explosões de palavras e hormonas adolescentes.
Etiquetas:
1969-40 anos Pink Floid,
BGees,
Procol Harum
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Poema
Os amigos
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino de Mendonça
De Igual Para Igual
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino de Mendonça
De Igual Para Igual
Do Silêncio e da Memória
De todas as pérolas guardadas no fundo de nós, o silêncio é, certamente, uma das mais preciosas. Irmão do vazio, da ausência, do não-ser, o silêncio habita-nos no mais íntimo da nossa humana fragilidade. E nós, atentos viajantes deste humano peregrinar, voltamo-nos para dentro e, no silêncio de nós mesmos, buscamos a mais profunda ligação, harmonia, paz. E a luz também. E, nessa luz, que nos habita e transcende, buscamos o Sentido, o Caminho, a Verdade, a Vida. E encontramos, no mais íntimo de nós, no mais profundo esvaziamento de nós, a secreta morada de Deus. Nessa morada repousamos os dias que nos ocupam a vida. Nessa morada encontramo-nos protegidos e amados como no ventre da mãe. A ela regressamos quando o ruído dos dias nos esvazia de nós. Nos alheia de nós. E gostamos. Gostamos de ver nos olhos fechados a luz que nos inunda, nos invade, nos possui. Gostamos de sentir a inefável quietude do silêncio que nos habita. Gostamos do amor que nos liga ao mundo nessa solene musicalidade divina. E re-inventamo-nos. E re-nascemos no sonho do re-encontro, da re-ligação. E, assim renascidos, revigorados, reforçamos a nossa fugaz historicidade. Reconhecemo-nos humanos, limitados, imperfeitos. Em construção. Dignos da luz que se faz no silêncio de nós mesmos. Capazes de amar. E damo-nos conta que todos os mestres viveram o silêncio, amaram em silêncio, amaram o silêncio. Todos os místicos buscaram, no mais íntimo de si mesmos, a luminosa comunhão com a Luz, a Verdade, a Vida. Todos os religiosos desejaram a primordial re-ligação com o Sagrado, o Espírito. Com Deus. E ouvimos o dizer de Sto Agostinho: ”Se Deus não estiver no teu coração, não está em parte alguma”. E compreendemos que o deserto é o silencioso esvaziamento de nós para connosco nos encontrarmos. E olhamos para fora e vemos o outro como igual, habitado da indelével beleza do silêncio que comungamos. E ouvimos o silêncio na plena musicalidade poética da Palavra. E sabemos da força solidária dos braços que se abrem, da dádiva encantada da voz que nos embala, da disponibilidade gratuita do sorriso que se abre, da serena coragem despojada de nós, do sonho que na vida se faz, do caminho, do caminhar, do chegar, do partir. Do amar. Do viver. E sabemos da íntima fraternidade partilhada na mais profunda comunhão, sabemos do encontro nas raízes do que somos, do outro que em nós nos fazemos, de nós que no outro se dá, da festa que no abraço se instala, da ternura, do pão, do vinho. Dos amigos. Dos irmãos. E sabemos que não estamos sós!
Deixamos entrar a memória e vemo-nos no silêncio solene da oração, no silêncio partilhado da refeição, no silêncio apaziguado do sono. Vemo-nos no silêncio majestoso da montanha, no silêncio reservado do retiro, no silêncio habitado do sonho. E sentimos a força do silêncio antigo em cada mergulho na mais íntima memória de nós. E recordamos os amigos. Os que chegaram, os que partiram, os que ficaram. E encontramo-nos no abraço cúmplice da memória que nos une. E sentimo-nos gratos e honrados por termos vivido tudo isto entre mestres e amigos nos nossos verdes anos.
Deixamos entrar a memória e vemo-nos no silêncio solene da oração, no silêncio partilhado da refeição, no silêncio apaziguado do sono. Vemo-nos no silêncio majestoso da montanha, no silêncio reservado do retiro, no silêncio habitado do sonho. E sentimos a força do silêncio antigo em cada mergulho na mais íntima memória de nós. E recordamos os amigos. Os que chegaram, os que partiram, os que ficaram. E encontramo-nos no abraço cúmplice da memória que nos une. E sentimo-nos gratos e honrados por termos vivido tudo isto entre mestres e amigos nos nossos verdes anos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Da Inutilidade dos Professores
Não é propósito de “Nós” publicar textos longos. Abrimos a primeira excepção para esta ficção que lemos no “De rerum natura”.
Sem preâmbulo, sem considerações, sem constrangimentos.
Ei-la:
O ano é 2.209 D.C. - ou seja, daqui a duzentos anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
“Vovô, por que o mundo está acabando?”. A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.”
“Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?”
“Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.”
“E como foi que eles desapareceram, vovô?”
“Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer: «estou pagando e você tem que me ensinar, ou «para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você», ou ainda «meu pai me dá mais de mesada do que você ganha.» Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo gerenciar a relação com o aluno. Os professores eram vítimas da violência física, verbal e moral que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas bem sucedidas eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas... Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de educação libertadora que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior «os milicos» ou os tais dos «subversivos».
“Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?"
"Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais..."
Sem preâmbulo, sem considerações, sem constrangimentos.
Ei-la:
O ano é 2.209 D.C. - ou seja, daqui a duzentos anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
“Vovô, por que o mundo está acabando?”. A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.”
“Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?”
“Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.”
“E como foi que eles desapareceram, vovô?”
“Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer: «estou pagando e você tem que me ensinar, ou «para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você», ou ainda «meu pai me dá mais de mesada do que você ganha.» Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo gerenciar a relação com o aluno. Os professores eram vítimas da violência física, verbal e moral que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas bem sucedidas eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas... Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de educação libertadora que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior «os milicos» ou os tais dos «subversivos».
“Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?"
"Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais..."
sábado, 5 de dezembro de 2009
1969 - 40 anos
Em 1969 foi On the Threshold of a Dream e To Our Children’s Children’s Children com Watching and Waiting
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Talvez Poema
11.
Livros
Leio
como quem olha o espelho
em busca de si próprio.
Uns ajudam, outros não.
Livros
Leio
como quem olha o espelho
em busca de si próprio.
Uns ajudam, outros não.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Dia Internacional da Pessoa com Deficiência
A necessidade de um “Dia Internacional” dedicado à pessoa com deficiência impele-nos a um questionamento sobre o sentido do humano a que nos é difícil, ou mesmo, impossível escapar.
O que fizemos da humanidade alimentada em tantas tradições morais, éticas, religiosas, filosóficas e mesmo científicas que nos foram apontando o outro como merecedor de toda a dignidade e atenção, justamente porque sendo outro para mim, eu sou outro para ele e, por isso mesmo, somos idênticos na diferença?
O que fizemos dos prementes apelos dos sábios que atravessaram o tempo e nos acalentaram o destino com as vozes vociferantes contra a exclusão?
O que fizemos dos sonhadores que nos alimentaram o presente com a utopia fundadora de reinos de uma só lei: “Faz aos outros o que queres que te façam a ti”?
O que fizemos dos homens que nos habitaram os dias com seus ideais fundadores da humanidade em que nos quisemos inventar entre o respeito e a liberdade?
Sucumbimos aos fantasmas que nos invadiram as noites e nos comeram a coragem com que aniquilámos a diferença que nos perturbava o espelho?
Desertámos das ruas que transbordavam de ideias e crenças em que se fundavam novos mundos de muitas cores e vazios de fronteiras?
Hipotecámos a terra em troca de um centro narcísico, construído à imagem de um poder narcísico autofágico?
A criação de um “Dia Internacional” não pode deixar de nos inquietar.
Aqui, no Nós, fazemos a apologia da diferença como condição ética do nosso modo humano de ser e o respeito, a solidariedade, a tolerância e a liberdade como esteios fundantes da nossa humanidade.
Como exemplos da diferença com que nos fazemos aqui ficam quatro exemplos (a acrescentar ao dedicado a Bento Amaral) de homens e mulheres que nos fazem acreditar na beleza, na arte, no amor. Na vida que se faz na diferença. No homem que se faz no respeito.
1.
2.
3.
Um deficiente com paralisia cerebral, doutorado em electrónica e computação, criou um software especial que permite que um deficiente que tenha dificuldade em se comunicar se possa fazer entender.
Lançado, esta quinta-feira, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o Easy Voice – Atendimento Sem Barreiras vai ficar instalado no serviço de passaportes do Governo Civil de Faro e permitirá a síntese da voz para este tipo de deficientes.
Fonte
4.
O que fizemos da humanidade alimentada em tantas tradições morais, éticas, religiosas, filosóficas e mesmo científicas que nos foram apontando o outro como merecedor de toda a dignidade e atenção, justamente porque sendo outro para mim, eu sou outro para ele e, por isso mesmo, somos idênticos na diferença?
O que fizemos dos prementes apelos dos sábios que atravessaram o tempo e nos acalentaram o destino com as vozes vociferantes contra a exclusão?
O que fizemos dos sonhadores que nos alimentaram o presente com a utopia fundadora de reinos de uma só lei: “Faz aos outros o que queres que te façam a ti”?
O que fizemos dos homens que nos habitaram os dias com seus ideais fundadores da humanidade em que nos quisemos inventar entre o respeito e a liberdade?
Sucumbimos aos fantasmas que nos invadiram as noites e nos comeram a coragem com que aniquilámos a diferença que nos perturbava o espelho?
Desertámos das ruas que transbordavam de ideias e crenças em que se fundavam novos mundos de muitas cores e vazios de fronteiras?
Hipotecámos a terra em troca de um centro narcísico, construído à imagem de um poder narcísico autofágico?
A criação de um “Dia Internacional” não pode deixar de nos inquietar.
Aqui, no Nós, fazemos a apologia da diferença como condição ética do nosso modo humano de ser e o respeito, a solidariedade, a tolerância e a liberdade como esteios fundantes da nossa humanidade.
Como exemplos da diferença com que nos fazemos aqui ficam quatro exemplos (a acrescentar ao dedicado a Bento Amaral) de homens e mulheres que nos fazem acreditar na beleza, na arte, no amor. Na vida que se faz na diferença. No homem que se faz no respeito.
1.
2.
3.
Um deficiente com paralisia cerebral, doutorado em electrónica e computação, criou um software especial que permite que um deficiente que tenha dificuldade em se comunicar se possa fazer entender.
Lançado, esta quinta-feira, no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o Easy Voice – Atendimento Sem Barreiras vai ficar instalado no serviço de passaportes do Governo Civil de Faro e permitirá a síntese da voz para este tipo de deficientes.
Fonte
4.
Etiquetas:
Dia Internacional,
Educação. Respeito. Diferença.,
Respeito
sábado, 28 de novembro de 2009
Encontro com... Bento Amaral
O que a vida nos reserva escapa ao nosso entendimento. Não somos deuses, somos homens e, como homens, percorremos os caminhos que somos capazes de descobrir ou inventar. De uma forma ou de outra, escapa-nos o futuro, que desconhecemos mas imaginamos. Como tal, resta-nos viver o presente em tudo o que faz dele o tempo que nos é dado viver. Apenas o presente nos é possível viver. Apenas no presente nos é possível a felicidade. Não viver o que a vida nos possibilita no presente que temos à nossa disposição é um desperdício, é escolher o inacessível de um futuro que poderá nunca acontecer, é trocar o possível pelo desejável, trocar a vida que construímos em cada momento em que nela nos envolvemos, alimentados pelos valores que nos fazem gostar de nós e dos outros, ou melhor, que nos fazem gostar de nós porque nos sentimos bem gostando dos outros, pelo desejo de um sonho que nos encanta e nesse encantamento poderá ofuscar-nos, paralisar-nos e devorar-nos como uma serpente.
Por isso, disse Bento Amaral na minha escola, “deve viver-se o presente em toda a sua plenitude” e “ser feliz agora” “sem esperar pelo amanhã. Por isso também, “preferia voltar a passar pelo que passei”, apesar de ter sido tão doloroso e traumático, simplesmente porque “me tornei melhor pessoa” e “percebi melhor as outras pessoas e o que significa ser feliz”, acrescentando que, antes do acidente, vivia confiado na sua auto-suficiência, contando apenas consigo mesmo. Com o acidente descobriu a sua fragilidade e os outros. Descobriu, enfim, a impossibilidade de ser feliz sozinho.
É espantosa a força, a coragem, a simpatia, o bem-estar que irradia Bento Amaral. E era exactamente essa vontade contagiante de viver que interessava acentuar no encontro com os alunos do ensino secundário, marcados pelo vazio dos modelos telenovelescos. O que nas mensagens hedonistas das telenovelas adolescentes é conseguido sem esforço, numa perversa apologia do ócio e do prazer, é em Bento Amaral promovido como resultado de trabalho, de esforço, de dedicação, de carinho, de envolvimento pessoal na construção da própria vida. Era também isso que importava acentuar a adolescentes em construção.
Não se pode ficar indiferente a tamanho sorriso sentado numa cadeira de rodas, dependente em quase tudo de terceiros. Não no amor. Bento ama e é amado. E esse amor vê-se no brilho do olhar que lhe habita o sorriso no rosto luminoso como apenas os rostos felizes o podem ser. E isso é imperdível, insuspeito, iniludível. E também isso nos importa. Sobretudo quando nos ocupamos com minudências, com insignificâncias que nos gastam os dias e nos afastam de nós e dos outros. E nessas minudências nos vamos esvaziando até nada termos para dar. E quando nada tivermos para dar o que poderemos receber? E quem no-lo dará?
Apenas poderá dar quem não se tiver esvaziado da sua humanidade, da disponibilidade para fazer do outro a razão da sua própria humanidade, da disponibilidade para dar cada dia o que espera receber. Quem se mantiver além do desgaste quotidiano do egocentrismo solipsista no qual o mundo apenas se encontra justificado no eu narcísico que se mira a si mesmo e nesse mirar-se se consome.
Olhando Bento Amaral temos de estar optimistas: a vida é possível, o amor é possível. E a felicidade também. Possíveis, não dadas: é preciso construí-las e cuidá-las. Bem!
Por isso, disse Bento Amaral na minha escola, “deve viver-se o presente em toda a sua plenitude” e “ser feliz agora” “sem esperar pelo amanhã. Por isso também, “preferia voltar a passar pelo que passei”, apesar de ter sido tão doloroso e traumático, simplesmente porque “me tornei melhor pessoa” e “percebi melhor as outras pessoas e o que significa ser feliz”, acrescentando que, antes do acidente, vivia confiado na sua auto-suficiência, contando apenas consigo mesmo. Com o acidente descobriu a sua fragilidade e os outros. Descobriu, enfim, a impossibilidade de ser feliz sozinho.
É espantosa a força, a coragem, a simpatia, o bem-estar que irradia Bento Amaral. E era exactamente essa vontade contagiante de viver que interessava acentuar no encontro com os alunos do ensino secundário, marcados pelo vazio dos modelos telenovelescos. O que nas mensagens hedonistas das telenovelas adolescentes é conseguido sem esforço, numa perversa apologia do ócio e do prazer, é em Bento Amaral promovido como resultado de trabalho, de esforço, de dedicação, de carinho, de envolvimento pessoal na construção da própria vida. Era também isso que importava acentuar a adolescentes em construção.
Não se pode ficar indiferente a tamanho sorriso sentado numa cadeira de rodas, dependente em quase tudo de terceiros. Não no amor. Bento ama e é amado. E esse amor vê-se no brilho do olhar que lhe habita o sorriso no rosto luminoso como apenas os rostos felizes o podem ser. E isso é imperdível, insuspeito, iniludível. E também isso nos importa. Sobretudo quando nos ocupamos com minudências, com insignificâncias que nos gastam os dias e nos afastam de nós e dos outros. E nessas minudências nos vamos esvaziando até nada termos para dar. E quando nada tivermos para dar o que poderemos receber? E quem no-lo dará?
Apenas poderá dar quem não se tiver esvaziado da sua humanidade, da disponibilidade para fazer do outro a razão da sua própria humanidade, da disponibilidade para dar cada dia o que espera receber. Quem se mantiver além do desgaste quotidiano do egocentrismo solipsista no qual o mundo apenas se encontra justificado no eu narcísico que se mira a si mesmo e nesse mirar-se se consome.
Olhando Bento Amaral temos de estar optimistas: a vida é possível, o amor é possível. E a felicidade também. Possíveis, não dadas: é preciso construí-las e cuidá-las. Bem!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Talvez poema
10
Despedida
Da tua poltrona de morte solta-se o grito impotente
no silêncio de dor e coragem com que fizeste tua condição
de mãe
Nasceste comigo no grito de amor e de prece
e cedo teus olhos de âmbar escureceram tristes
com a dor sem remédio
com que de negro vestiste
teu corpo curvado
envelhecido
Escapa-se-te o sonho!
Morres-te!
Restas-te na memória antiga dos sonhos que fizeste.
Desde sempre habitas meus passos andarilhos
da vida inquieta
que em ti nasceu.
Sobras-me na memória do tempo que em ti se fez
Sobras-me inteira no silêncio do arco-íris
Despedida
Da tua poltrona de morte solta-se o grito impotente
no silêncio de dor e coragem com que fizeste tua condição
de mãe
Nasceste comigo no grito de amor e de prece
e cedo teus olhos de âmbar escureceram tristes
com a dor sem remédio
com que de negro vestiste
teu corpo curvado
envelhecido
Escapa-se-te o sonho!
Morres-te!
Restas-te na memória antiga dos sonhos que fizeste.
Desde sempre habitas meus passos andarilhos
da vida inquieta
que em ti nasceu.
Sobras-me na memória do tempo que em ti se fez
Sobras-me inteira no silêncio do arco-íris
Bento Amaral na minha escola
Bento Amaral esteve na minha escola no âmbito de uma actividade denominada "Encontro com". Esta actividade orienta-se para a promoção de "modelos positivos" junto dos alunos que possam, de algum modo, apresentar-se como alternativas aos modelos promovidos pelos media, sobretudo a TV e suas telenovelas.
Bento Amaral - 40 anos, casado, natural do Porto.
Engº Alimentar pela Escola de Biotecnologia da Universidade Católica
No 5º ano do curso estagiou no Instituto de Enologia de Bordéus.
Professor na Universidade Católica de Avaliação Sensorial em pós-graduações e mestrado de Enologia e Markting de Vinhos.
Colabora na Revista Blue Wine.
Chefe de provas do IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto), onde é Responsável pela Câmara de Provadores, que atribui as (DOC) Denominações de Origem dos vinhos produzidos na região do Douro.
Desporto
- Praticante de vela ligeira desde os 14 anos
- Vela adaptada desde 2001
- 2004 – Vice campeão mundial
- 2005 – Campeão mundial
- 2008 – Qualificou Portugal para Jogos Parolímpicos de Pequim - 9º
Condecorações
- Ordem do Infante (10 de Junho de 2008).
Falta um pormenor importante: Bento Amaral é tetraplégico há 15 anos, desde que em 1994 bateu com a cabeça na areia da praia quando fazia uma carreirinha mal calculada numa onda.
Falta outro pormenor: é casado desde 2007. Nessa cerimónia tão querida para ele, Bento Amaral abriu o baile com a mulher sentada no seu colo, ambos na cadeira de rodas que usa de manhã à noite.
(Hoje é a notícia, amanhã é a reflexão)
Bento Amaral - 40 anos, casado, natural do Porto.
Engº Alimentar pela Escola de Biotecnologia da Universidade Católica
No 5º ano do curso estagiou no Instituto de Enologia de Bordéus.
Professor na Universidade Católica de Avaliação Sensorial em pós-graduações e mestrado de Enologia e Markting de Vinhos.
Colabora na Revista Blue Wine.
Chefe de provas do IVDP (Instituto do Vinho do Douro e do Porto), onde é Responsável pela Câmara de Provadores, que atribui as (DOC) Denominações de Origem dos vinhos produzidos na região do Douro.
Desporto
- Praticante de vela ligeira desde os 14 anos
- Vela adaptada desde 2001
- 2004 – Vice campeão mundial
- 2005 – Campeão mundial
- 2008 – Qualificou Portugal para Jogos Parolímpicos de Pequim - 9º
Condecorações
- Ordem do Infante (10 de Junho de 2008).
Falta um pormenor importante: Bento Amaral é tetraplégico há 15 anos, desde que em 1994 bateu com a cabeça na areia da praia quando fazia uma carreirinha mal calculada numa onda.
Falta outro pormenor: é casado desde 2007. Nessa cerimónia tão querida para ele, Bento Amaral abriu o baile com a mulher sentada no seu colo, ambos na cadeira de rodas que usa de manhã à noite.
(Hoje é a notícia, amanhã é a reflexão)
Etiquetas:
Bento Amaral,
Educação. Respeito. Diferença.,
Respeito
sábado, 14 de novembro de 2009
Poema
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
Daniel Faria
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Do conhecer e do saber
"O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele."
A referência encontrei-a em http://filosofarpreciso.blogspot.com/.
Não é difícil perceber aqui uma das questões que alimenta a reflexão à volta da educação e do papel da escola no mundo marcado por uma tripla revolução, como Gardner afirma na entrevista que a revista Nova Escola traz na sua edição de Outubro: “ a globalização”, “a biológica” e “a digital”.
Qual o papel destinado à escola? Transmitir conhecimentos ou construir saberes? Formar gerações que adquirem conhecimentos que lhes permitirão dominar técnicas com as quais desempenharão trabalhos e funções de uma forma eficaz e eficiente, segundo modelos produtivos desligados das finalidades que lhes estão associadas ou contribuir com os saberes que a escola mobiliza na sua permanente actualização (mesmo com a reconhecida incapacidade pro-activa da escola e de actuar (quase) sempre em reacção) para a construção de saberes que envolvam as gerações que a frequentam na busca de soluções para os problemas que nos afectam como sujeitos de um mundo em inter-relação? A ecola deve formar técnicos, cidadãos ou técnicos-cidadãos?
A sociedade do saber que a escola persegue não implica uma umbilical ligação aos valores que nos fazem homens dignos?
Claro que sim!
Eis um pequeno excerto da entrevista acima referida. Para ler e pensar.
Howard Gardner, que se dedica a estudar a forma como o pensamento se organiza, balançou as bases da Educação ao defender, em 1984, que a inteligência não pode ser medida só pelo raciocínio lógico-matemático, geralmente o mais valorizado na escola. Segundo o psicólogo norte-americano, havia outros tipos de inteligência: musical, espacial, linguística, interpessoal, intrapessoal, corporal, naturalista e existencial. A Teoria das Inteligências Múltiplas atraiu a atenção dos professores, o que fez com que ele se aproximasse mais do mundo educacional.
Hoje, Gardner tem um novo foco de pensamento, organizado no que chama de cinco mentes para o futuro, em que a ética se destaca. "Não basta ao homem ser inteligente. Mais do que tudo, é preciso ter caráter", diz, citando o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882). E emenda: "O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele".
O livro [Cinco Mentes para o Futuro] aponta também habilidades associadas a virtudes morais.
GARDNER Uma delas envolve o respeito - e é mais fácil explicar a mente respeitosa do que alcançá-la. Ela começa com o reconhecimento de que cada ser humano é único e, por isso, tem crenças e valores diferentes. A questão é o que fazemos com essa conclusão. Nós podemos matar e discriminar os diferentes ou tentar entendê-los e cooperar com eles. Desde que nascem, os humanos percebem se vivem em um ambiente respeitoso. Observam como os pais se relacionam e tratam os filhos, como os mestres interagem com os colegas e com os estudantes e assim por diante. O respeito está na superfície.
Essa última habilidade se relaciona à ética, certo?
GARDNER Sim. No que se refere à ética, é necessário imaginar-se com múltiplos papéis: ser humano, profissional e cidadão do mundo. O que fazemos não afeta uma rua, mas o planeta. Temos de pensar nos nossos direitos, mas também nas responsabilidades. O mais difícil com relação à ética é fazer a coisa certa mesmo quando essa atitude não atende aos nossos interesses. Ao resumir esses dois últimos tipos de mente, eu diria que pessoas que têm atitudes éticas merecem respeito. O problema é que muitas vezes respeitamos alguém só pelo dinheiro ou pela fama. O mundo certamente seria melhor se dirigíssemos nosso respeito às pessoas extremamente éticas.
A referência encontrei-a em http://filosofarpreciso.blogspot.com/.
Não é difícil perceber aqui uma das questões que alimenta a reflexão à volta da educação e do papel da escola no mundo marcado por uma tripla revolução, como Gardner afirma na entrevista que a revista Nova Escola traz na sua edição de Outubro: “ a globalização”, “a biológica” e “a digital”.
Qual o papel destinado à escola? Transmitir conhecimentos ou construir saberes? Formar gerações que adquirem conhecimentos que lhes permitirão dominar técnicas com as quais desempenharão trabalhos e funções de uma forma eficaz e eficiente, segundo modelos produtivos desligados das finalidades que lhes estão associadas ou contribuir com os saberes que a escola mobiliza na sua permanente actualização (mesmo com a reconhecida incapacidade pro-activa da escola e de actuar (quase) sempre em reacção) para a construção de saberes que envolvam as gerações que a frequentam na busca de soluções para os problemas que nos afectam como sujeitos de um mundo em inter-relação? A ecola deve formar técnicos, cidadãos ou técnicos-cidadãos?
A sociedade do saber que a escola persegue não implica uma umbilical ligação aos valores que nos fazem homens dignos?
Claro que sim!
Eis um pequeno excerto da entrevista acima referida. Para ler e pensar.
Howard Gardner, que se dedica a estudar a forma como o pensamento se organiza, balançou as bases da Educação ao defender, em 1984, que a inteligência não pode ser medida só pelo raciocínio lógico-matemático, geralmente o mais valorizado na escola. Segundo o psicólogo norte-americano, havia outros tipos de inteligência: musical, espacial, linguística, interpessoal, intrapessoal, corporal, naturalista e existencial. A Teoria das Inteligências Múltiplas atraiu a atenção dos professores, o que fez com que ele se aproximasse mais do mundo educacional.
Hoje, Gardner tem um novo foco de pensamento, organizado no que chama de cinco mentes para o futuro, em que a ética se destaca. "Não basta ao homem ser inteligente. Mais do que tudo, é preciso ter caráter", diz, citando o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882). E emenda: "O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele".
O livro [Cinco Mentes para o Futuro] aponta também habilidades associadas a virtudes morais.
GARDNER Uma delas envolve o respeito - e é mais fácil explicar a mente respeitosa do que alcançá-la. Ela começa com o reconhecimento de que cada ser humano é único e, por isso, tem crenças e valores diferentes. A questão é o que fazemos com essa conclusão. Nós podemos matar e discriminar os diferentes ou tentar entendê-los e cooperar com eles. Desde que nascem, os humanos percebem se vivem em um ambiente respeitoso. Observam como os pais se relacionam e tratam os filhos, como os mestres interagem com os colegas e com os estudantes e assim por diante. O respeito está na superfície.
Essa última habilidade se relaciona à ética, certo?
GARDNER Sim. No que se refere à ética, é necessário imaginar-se com múltiplos papéis: ser humano, profissional e cidadão do mundo. O que fazemos não afeta uma rua, mas o planeta. Temos de pensar nos nossos direitos, mas também nas responsabilidades. O mais difícil com relação à ética é fazer a coisa certa mesmo quando essa atitude não atende aos nossos interesses. Ao resumir esses dois últimos tipos de mente, eu diria que pessoas que têm atitudes éticas merecem respeito. O problema é que muitas vezes respeitamos alguém só pelo dinheiro ou pela fama. O mundo certamente seria melhor se dirigíssemos nosso respeito às pessoas extremamente éticas.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A euforia no portátil
Havia um trabalho em grupo para fazer. Organizados para dar continuidade ao trabalho já desenvolvido fora da escola abrem as mochilas e tiram o portátil.
Estamos numa escola de província. O acesso aos centros de informação é limitado pela distãncia e pelos raros, caros e difíceis transportes. A biblioteca escolar é uma sala com enciclopédias generalistas e pouco profundas mas poucos livros. O acesso à informação tem que fazer-se via internet. Nós sabêmo-lo e os alunos também.
De um momento para o outro há sete portáteis com ligação móvel à internet na sala de aula. Tudo acessível por um clique. E é aqui que começa a euforia e, receio-o, o desencanto. O acesso fácil à informação reforça a transparência das vidas fáceis que os conteúdos mediáticos juvenis definem e estimulam. Reforça, portanto, a dimensão identitária das crianças e adolescentes com o ideal de sucesso dos seus heróis.
Eles não o sabem mas nós sabêmo-lo: o sucesso ou a melhoria do aprender e do ensinar e a consequente melhor ou pior preparação para a escola e para a vida não depende das TIC, depende do uso inteligente do trabalho intelectual que se desenvolve no processo de apropriação da informação, venha ela por que via vier.
Não é a informação que nos forma, que nos faz o que somos. É a apropriação inteligente da informação. De nada serviria a informação se não soubéssemos o que fazer com ela, se dela não fizéssemos um exercício pessoal, reflectido, articulado, organizado, disciplinado, coerente, se dela não construíssemos um texto, quer dizer, um discurso que torne entendível o mundo que construímos. Um discurso pessoal, escrito, partilhável na leitura e interpretação que despoleta a sua inteligibilidade e comunicabilidade.
É importante não esquecer que apenas nos fazemos uns com os outros na comunicação e na linguagem com a qual e pela qual nos identificamos e somos. A promoção dessa dimensão comunicacional, enquanto actividade humana por excelência, apresenta-se, então, como um dever educativo. Pedagógico também. Assume, por conseguinte, um carácter ético.
Nestas circunstâncias, se não promovermos a comunicação interpessoal como processo de humanização e o texto escrito como exercício maior de intelecção do real, continuaremos ao lado do progresso, ao lado do sucesso, ao lado daquilo que nos garante o desenvolvimento pessoal, social, intelectual, mental de cada um e de todos. Só esse é durável.
O portátil é uma ferramenta eufórica. É fácil de usar e dá ao utilizador a sensação divinal de omnisciência e omnipotência: com um pequeno toque poderá saber tudo sem esforço. Este poder torna-o eufórico. E o caso não é para menos.
O livro também é uma ferramenta. Mas não é fácil, nem transparente, nem absoluto no saber que possibilita. São precisos muitos livros, muito esforço, muito estudo para saber.
Não é difícil perceber a euforia colada às TIC e descolada dos livros entre as crianças e adolescentes.
Mas, sabêmo-lo bem, o sucesso não está nas TIC, nem nos livros. O sucesso está no uso que deles fizermos. Aí se encontrará também o encanto ou o desencanto.
Aí se encontra também o exercício do dever pedagógico e educativo.
Estamos numa escola de província. O acesso aos centros de informação é limitado pela distãncia e pelos raros, caros e difíceis transportes. A biblioteca escolar é uma sala com enciclopédias generalistas e pouco profundas mas poucos livros. O acesso à informação tem que fazer-se via internet. Nós sabêmo-lo e os alunos também.
De um momento para o outro há sete portáteis com ligação móvel à internet na sala de aula. Tudo acessível por um clique. E é aqui que começa a euforia e, receio-o, o desencanto. O acesso fácil à informação reforça a transparência das vidas fáceis que os conteúdos mediáticos juvenis definem e estimulam. Reforça, portanto, a dimensão identitária das crianças e adolescentes com o ideal de sucesso dos seus heróis.
Eles não o sabem mas nós sabêmo-lo: o sucesso ou a melhoria do aprender e do ensinar e a consequente melhor ou pior preparação para a escola e para a vida não depende das TIC, depende do uso inteligente do trabalho intelectual que se desenvolve no processo de apropriação da informação, venha ela por que via vier.
Não é a informação que nos forma, que nos faz o que somos. É a apropriação inteligente da informação. De nada serviria a informação se não soubéssemos o que fazer com ela, se dela não fizéssemos um exercício pessoal, reflectido, articulado, organizado, disciplinado, coerente, se dela não construíssemos um texto, quer dizer, um discurso que torne entendível o mundo que construímos. Um discurso pessoal, escrito, partilhável na leitura e interpretação que despoleta a sua inteligibilidade e comunicabilidade.
É importante não esquecer que apenas nos fazemos uns com os outros na comunicação e na linguagem com a qual e pela qual nos identificamos e somos. A promoção dessa dimensão comunicacional, enquanto actividade humana por excelência, apresenta-se, então, como um dever educativo. Pedagógico também. Assume, por conseguinte, um carácter ético.
Nestas circunstâncias, se não promovermos a comunicação interpessoal como processo de humanização e o texto escrito como exercício maior de intelecção do real, continuaremos ao lado do progresso, ao lado do sucesso, ao lado daquilo que nos garante o desenvolvimento pessoal, social, intelectual, mental de cada um e de todos. Só esse é durável.
O portátil é uma ferramenta eufórica. É fácil de usar e dá ao utilizador a sensação divinal de omnisciência e omnipotência: com um pequeno toque poderá saber tudo sem esforço. Este poder torna-o eufórico. E o caso não é para menos.
O livro também é uma ferramenta. Mas não é fácil, nem transparente, nem absoluto no saber que possibilita. São precisos muitos livros, muito esforço, muito estudo para saber.
Não é difícil perceber a euforia colada às TIC e descolada dos livros entre as crianças e adolescentes.
Mas, sabêmo-lo bem, o sucesso não está nas TIC, nem nos livros. O sucesso está no uso que deles fizermos. Aí se encontrará também o encanto ou o desencanto.
Aí se encontra também o exercício do dever pedagógico e educativo.
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