segunda-feira, 28 de junho de 2010


30.
Que fizemos do luar de estio
em que os corpos se atormentavam em desejos e tabus?
Que resta das noites claras em que a palavra afagava o silêncio
das bocas suspensas no amor?
Que sobra de nós nos gestos invocados no tempo incerto
dos dias vazios de sol e de mar?

Tanto tempo demorado na memória
dos sonhos por fazer!

Agora lavro o tempo onde receio que rosa alguma florirá
(e, contudo, insisto, teimo e semeio)

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Muito grato ao Tacci pelo desenho com que iluminou este "Talvez Poema" no seu "Portugal, Caramba".

1970 - 40 anos

Regresso também a Let it be.

1970 - 40 anos

Regresso a Bridge over troubled waters desta vez com why don't you write me.
Fiquem bem.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Talvez Poema

29.
De todos os nomes que habitaste
restam o mar
e a solidão

Ao mar
regresso sempre que o olhar
se me fecha
e teu sorriso transparece
nas longínquas vozes
da memória

Da solidão
fiz minha sombra.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Verão- Vivaldi em versões "profanas"



Verão

Saudação ao Verão que chega
que aquece as almas amantes de luz e de cor
e açoita violentamente os corpos distraídos
que se lhe oferecem sem pudor.

Shumann

Devia ter sido a 8 de Junho, data do seu nascimento.
Homenagem ao músico romântico por excelência
no ano do bicentenário do seu nascimento.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Autonomia e projecto - 3

Projecto e diferença

No seu capítulo II – Regime de autonomia – artigo 8º, §1 o decreto-lei 75/2008 de 22 de Abril refere que “a autonomia é a faculdade reconhecida ao agrupamento de escolas ou à escola não agrupada pela lei e pela administração educativa de tomar decisões nos domínios da organização pedagógica, da organização curricular, da gestão dos recursos humanos, da acção social escolar e da gestão estratégica, patrimonial, administrativa e financeira, no quadro das funções, competências e recursos que lhe estão atribuídos”. Acrescenta no artigo seguinte, §1 que “o projecto educativo, o regulamento interno, os planos anual e plurianual de actividades e o orçamento constituem instrumentos do exercício de autonomia [...]”, bem como (§2) o relatório anual de actividades, a conta de gerência e o relatório de auto-avaliação (estes “para efeitos de prestação de contas”) e o “contrato de autonomia” que constitui “o [seu] instrumento de desenvolvimento e aprofundamento”. Por outro lado, esclarece (§1, alínea a) que o “projecto educativo” é “o documento que consagra a orientação educativa do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão para um horizonte de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e as estratégias segundo os quais o agrupamento de escolas ou escola não agrupada se propõe cumprir a sua função educativa”.

O projecto educativo corresponde, assim, não apenas a um dos “instrumentos de autonomia” mas o documento essencial da autonomia e da função primordial da escola: a educação. Com efeito, o projecto educativo “consagra a orientação educativa” e explicita ”os princípios, os valores, as metas e as estratégias” a partir das quais as escolas se propõem “cumprir a sua função educativa”.

O projecto educativo constitui, por conseguinte, a pedra basilar sobre a qual se constrói todo o edifício educativo centrado na escola que se pretende portadora de valores, dinamizadora de saberes, integradora de diferenças, promotora do crescimento pessoal, mental e social daqueles a que se destina – as crianças e adolescentes – com vista à construção de homens livres, como temos vindo a acentuar.

Nesta perspectiva, Adalberto D. Carvalho considera que “o projecto educativo constitui a espinha dorsal da autonomia [da escola], seu fundamento e seu reflexo. Ele marca sobretudo a passagem de um sistema educativo de estrutura vertical [...] para um sistema de regulação horizontal que aspira a ser o intérprete do reconhecimento não discriminatório das diferenças. Diferenças entre os alunos, diferenças entre os professores, diferenças entre as escolas. Esta será, aliás, a única base possível de uma igualdade autêntica e educativamente consequente” (1993: 5). Com efeito, apenas na diferença se justifica a educação e a escola . Se todos fôssemos iguais, se todos soubéssemos o mesmo, nada haveria para ensinar e para aprender. É, pois, na diferença, no seu reconhecimento e respeito que a dimensão educativa da actividade pedagógica, encontra a sua razão de ser. Por conseguinte, tudo o que diga respeito à escola (organização, currículo, projecto, acção) passa necessariamente pela assunção da diferença como critério essencial do seu modo de ser e de agir.

É essencial, pois, que a escola assuma que há crianças, jovens e adultos, professores e alunos, escolas urbanas e escolas rurais, em meios favorecidos e em meios desfavorecidos; que há quem sabe e ensina e quem não sabe e aprende; que aprender através de imagens é diferente de aprender através de textos, que estimular a busca autónoma pelo saber é diferente do ensino repetitivo e autómato, que, enfim, repetir modelos é diferente de criar projectos autónomos. Consoante a escolha que fizermos assim nos orientaremos para processos organizacionais, pedagógicos e educativos distintos. Uns privilegiam a transmissão e nela se centram, manifestando alguma (ou muita, como no caso do modelo burocrático) desconfiança pela mudança ao mesmo tempo que nutrem da sua fixação no passado com modelos pedagógicos e educativos centrados no professor, como voz mecânica desses saberes fixos, seguros, dominantes e conservadores. A escola, nesta perspectiva, tem a função de conservar o saber dominante transmitindo-o de modo uniforme e constringente. As pedagogias directivas tradicionais têm aqui o seu chão propício.

Pelo contrário, a escola pode escolher a ruptura com o passado, com a tradição e promover a inovação permanente, numa frenética luta contra tudo o que se assemelhe ao passado, à tradição, responsabilizados pelos males de que é preciso curar e contra os quais é preciso imunizar as gerações aprendentes. A escola nova nasceu e cresceu neste modelo e as pedagogias não directivas também. De facto, centrando a actividade pedagógica e educativa no aluno e a função da escola na aprendizagem obsessiva pelo novo, esvazia-se a ligação das novas gerações aprendentes com as gerações que lhes deram origem tornando-se indivíduos sem história, i.é, sem a dimensão que nos faz homens: a nossa historicidade, a consciência do tempo e do espaço em que nos fazemos uns com os outros. Arriscamo-nos, portanto, a criar indivíduos órfãos de cultura, homens que cresceram na crença de que apenas o que eles sabem, fazem e criam é importante, tem sentido, tem interesse. Como todos os órfãos, mais cedo ou mais tarde, dar-se-ão conta de que não nasceram do vazio, que havia um antes e haverá um depois. Que afinal têm pais! Mais cedo ou mais tarde, descobrirão que, mesmo os saberes, por mais operatórios, objectivos, funcionais e profícuos que sejam, resultam de um processo que os justifica. Mesmo na sua epistemológica revolução paradigmática. Descobrirão que não vivem sozinhos e, acima de tudo, que não se fazem sozinhos. Fazem-se (fazemo-nos) uns com os outros e apenas com os outros nos fazemos humanos .

O outro é, pois, na sua diferença ôntica e ética, a razão de ser da escola, da pedagogia e da educação. O outro é a razão de o eu ser o que é: imperfeito, inacabado, historicamente marcado pelo tempo e pelo sítio onde vive. O outro, enquanto aquele com o qual o eu se confronta e se forma, estabelece a dimensão ética do ser, pensar, dizer e fazer do eu que o reconhece como diferente e, por isso mesmo, com igual dignidade e onticidade.

O reconhecimento da diferença como categoria ontológica e ética coloca-nos no cerne da reflexão sobre a escola, a pedagogia, a educação e, por conseguinte, do tempo, do espaço e do projecto educativos. Por três razões essenciais:

1. Reconhecimento da historicidade do tempo, do espaço e dos saberes humanos;

2. Reconhecimento da comunicação como centro da actividade pedagógica e educativa;

3. Reconhecimento do projecto como expressão da permanente busca humana pela superação dos limites da sua fragilidade e ignorância.

Bibliografia referenciada

AAVV 2006 A autonomia das escolas, Lisboa, F. C. Gulbenkian
BARROSO, João (2006) “A autonomia das escolas: retórica, instrumento e modo de regulação da acção política”, in AAVV (2006) A autonomia das escolas, Lisboa, F.C.Gulbenkian, pp 23-48
BARROSO, João (2004) “A autonomia das escolas: uma ficção necessária” in Revista Portuguesa de Educação, 2004, 17(2), pp 49-83CARVALHO, Adalberto (1994) Utopia e educação, Porto, Porto Ed.
CARVALHO, Adalberto et alt (1993) A construção do projecto de escola, Porto, Porto ed
CARVALHO, Rómulo (1986) História do Ensino em Portugal, Lisboa, F. C. Gulbenkian,
DAMAS, José A (1997) A Educação como comunicação normativa, Penafiel, ISP
FOUCAULT, Michel (1975) Surveiller et punir, Paris, Gallimard
GIL, Fernando (1979) « Disciplinas : Invenção, transmissão, habitus", in CARRILHO, Manuel M (dir.) (1979) História e prática das ciências, Lisboa, A Regra do Jogo, pp. 239-321
GOMES, Joaquim F. (1984) Estudos de História e de Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina
LIMA, Licínio C. (1992) A escola como organização e a participação na organização escolar, Braga, Un. Minho
STEINER, G., LADJALI, C (2004) Elogio da Transmissão, Lisboa, D. Quixote
TORGAL, Luis R. (1993) "A instrução Pública" in História de Portugal, Quinto Volume, 609-652, Lisboa, Círculo de Leitores

Talvez Poema

28.
O banco ainda lá está as pontas dos cigarros já não.
Mantenho viva a memória dessa tarde deslumbrada em que a angústia e a timidez se sublimaram nas palavras imperfeitas que se soltavam opacas no fumo dos cigarros.

O abismo cercava-me o olhar e o dizer.
A coragem, tantas vezes adiada, irrompeu receosa e perfumou-se das flores do jardim.

As flores mantêm o aroma perfumado de alecrim e alfazema embrulhado em acácia e rosa brava. Eu aspiro-o sobretudo nos dias sombrios de chuva e temporal. Assim, a primavera chega mais cedo e o verão aquece-me ainda outra vez no banco do jardim onde te disse o meu amor sem o dizer.

Faz-me bem ouvir o balbuciar das folhas do carvalho que me acolhe nas tardes quentes do estio. Fecho os olhos e vejo teu contentamento no brilho silencioso do teu olhar. Guardo-o no cantinho onde estão os tesouros que a vida o sonho o amor me foram dando. Deles me sirvo nos dias em que as flores perdem as pétalas e o arco-íris.

E recomeço. Recomeço sempre.
Ao banco regresso sempre também. Sento-me, fixo o chão, fecho os olhos e vejo o brilho do teu olhar. E sei que o verão começou.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Talvez Poema

27.
Teus passos nítidos
escapam seguros à espuma
das ondas do solstício

Num ritmo suave
- quase musical –
paras olhas
aspiras a maresia
abres os braços o peito os lábios
soltas o amor

Sigo teus passos

Apresso-me a mergulhar
no sorriso do teu olhar

Autonomia e projecto - 2

Ensinar e Aprender

A escolha da melhor forma de ensinar e de aprender depende do seu ajustamento circunstancial e contextual. São as circunstâncias e o contexto que determinam a escolha dos métodos, técnicas e procedimentos que melhor se ajustarem ao processo de ensinar e de aprender. Por sua vez, é este ajustamento que determina, em larga medida, o sucesso/insucesso dos processos educativos e pedagógicos. Neste sentido, do mesmo modo que quem ensina recorre aos métodos e técnicas julgados mais eficazes, eficientes e oportunos na sua função de tornar compreensível o que é ensinado, também quem aprende faz uso dos processos julgados também mais eficazes, eficientes e oportunos para compreender o que aprende, de modo a assimilá-lo como saber, como conhecimento.

No que à escola diz respeito, a definição do que ela deve ensinar, i.é, a identificação das finalidades e desígnios formativos e educacionais é competência do Estado. A salvaguarda do “saber comum” e da identidade cultural assim o exige. A sua operacionalização, i.é, a escolha dos melhores processos de transmiti-los e ensiná-los e das melhores condições para aprender deve ser competência da escola.

É aqui, justamente neste equilíbrio entre o que ensinar e aprender e como ensinar e aprender que se joga todo o processo educacional e o sentido da autonomia e do projecto. É aqui que se joga o equilíbrio entre a autoridade e a autonomia. É aqui, enfim que se ganha ou se perde a luta contra a barbárie e o vazio , como Steiner afirmou, referindo-se ao ensino secundário (2004: 75).

Deste modo, a “autonomia autêntica” advém do reconhecimento, por parte do Estado, da competência e da capacidade das escolas escolherem e operacionalizarem os processos mais adequados ao cumprimento dos objectivos e finalidades, identificados pelos órgãos competentes que tutelam a educação como essenciais ao nosso viver comum e à educação de todos, com todos e para todos.

São as escolas e os professores que melhor poderão mobilizar os saberes e capacidades com vista à educação das crianças e jovens a que se destina. São as escolas e os professores que poderão dar resposta adequada e oportuna à imprevisibilidade e imponderabilidade das circunstâncias e desafios com que o ensinar e o aprender se confrontam, tanto mais quanto a escola pretender assumir-se como mobilizadora da imprevisibilidade dos saberes que se fazem ao seu redor, disponibilizados pela TV, pela Internet e/ou por grupos e comunidades étnicas, culturais e raciais.

São as escolas, na sua especificidade e diferença, assumida a sua insubstituível função educativa, alicerçada nos valores que nos permitem viver bem uns com os outros, contribuindo para a dignificação interpessoal dos envolvidos no processo de ensinar e de aprender, que, no processo educativo, podem fazer da diferença uma categoria fundamental do tempo e do espaço que constituem a nosso modo humano de ser e do outro a referência da educação inclusiva. A liberdade, o respeito, a solidariedade e a tolerância são os pilares deste edifício ético que se constrói na mobilização intersubjectiva de modos de ser, pensar, dizer e fazer que, na sua diversidade, mutuamente se justificam na dinâmica dialógica que identifica o processo educativo e pedagógico.

Ora, este reconhecimento tornará mais eficaz a acção do Estado perante, por um lado, a progressiva complexidade que caracteriza as sociedades contemporâneas e a escola e, por outro, a necessidade de conciliar o respeito pela diferença com as finalidades e objectivos comuns. Esta conciliação só será possível “com o reforço simultâneo da autonomia das escolas e das formas democráticas de participação e decisão” (Barroso, idem: 44). “Só assim será possível, conclui, recorrendo a Tyack e Cuban, ‘estabelecer um acordo sobre uma base suficientemente generosa, atractiva e plausível que possa unificar os cidadãos no apoio à escola pública’, ’uma necessidade crucial do nosso tempo’”(Idem: 45).

Neste sentido, salientam-se, doze anos depois, os “sete princípios” que João Barroso considera norteadores da autonomia das escolas que possa constituir motor de inovação e “um meio de as escolas prestarem em melhores condições o serviço público de educação” (Ibidem) .

O decreto-lei 75/2008 de 22 de Abril representa um passo importante no reconhecimento da importância das escolas na promoção da educação, do saber em íntima articulação com a comunidade em que se insere. Assim vá além da “retórica política” e da pura “ficção” e se transforme no motor de uma estimulante utopia.


Bibliografia referenciada

AAVV 2006 A autonomia das escolas, Lisboa, F. C. Gulbenkian
BARROSO, João (2006) “A autonomia das escolas: retórica, instrumento e modo de regulação da acção política”, in AAVV (2006) A autonomia das escolas, Lisboa, F.C.Gulbenkian, pp 23-48
BARROSO, João (2004) “A autonomia das escolas: uma ficção necessária” in Revista Portuguesa de Educação, 2004, 17(2), pp 49-83
CARVALHO, Adalberto (1994) Utopia e educação, Porto, Porto Ed.
CARVALHO, Adalberto et alt (1993) A construção do projecto de escola, Porto, Porto ed
CARVALHO, Rómulo (1986) História do Ensino em Portugal, Lisboa, F. C. Gulbenkian,
DAMAS, José A (1997) A Educação como comunicação normativa, Penafiel, ISP
FOUCAULT, Michel (1975) Surveiller et punir, Paris, Gallimard
GIL, Fernando (1979) « Disciplinas : Invenção, transmissão, habitus", in CARRILHO, Manuel M (dir.) (1979) História e prática das ciências, Lisboa, A Regra do Jogo, pp. 239-321
GOMES, Joaquim F. (1984) Estudos de História e de Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina
LIMA, Licínio C. (1992) A escola como organização e a participação na organização escolar, Braga, Un. Minho,
STEINER, G., LADJALI, C (2004) Elogio da Transmissão, Lisboa, D. Quixote
TORGAL, Luis R. (1993) "A instrução Pública" in História de Portugal, Quinto Volume, 609-652, Lisboa, Círculo de Leitores

sábado, 5 de junho de 2010

Autonomia e Projecto

1. Autonomia da escola

Desde as pombalinas expulsão dos jesuítas, a Directoria Geral de Estudos (ambas de 1759) e a Real Mesa Censória (1771) sempre o Estado em Portugal procurou, de uma forma mais ou menos formal e explícita, controlar a educação e o ensino. Para isso, foi criando estruturas de fiscalização e de controlo e, sobretudo, produzindo normas legais que sustentassem essa sua vocação controladora. Dito de outro modo: o Estado, ciente do poder que o saber representa, foi criando condições de controlo do saber de modo que dele pudesse dispor no seu exercício de domínio .

Mesmo no pós-25 de Abril, na democracia institucionalizada, esse desejo de manter o saber sob controlo continuou a alimentar a produção normativa e normalizadora .

É, de facto, a preocupação normalizadora e, por conseguinte, universalizadora e uniformizadora (Foucault, 1975) e disciplinadora (Gil, 1979) que norteia a estruturação do ensino e da educação que se fazem na escola. Por isso, apesar da liberdade e a autonomia constituírem valores referenciais da Constituição da República, foi preciso esperar três anos após a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86, de 14 de Outubro), onde eram já invocados níveis de participação de todos os implicados no processo educativo e de interligação com a comunidade, bem como, nos seus artigos 2º e 3º, era definida a organização do sistema educativo segundo os princípios da democraticidade e participação “através da adopção de estruturas e processos participativos na definição da política educativa, na administração e gestão do sistema escolar e na experiência pedagógica quotidiana, em que se integram todos os intervenientes no processo educativo, em especial os alunos, os docentes e as famílias” (artº 3º, alínea l).

Com efeito, é com o decreto-lei nº 43/89, de 3 de Fevereiro que se inicia o processo legislativo com que se pretende instituir e institucionalizar a autonomia das escolas. Está aberto o caminho. Falta percorrê-lo. Melhor: falta fazê-lo. E, para fazê-lo, o Estado produz normas, com as quais organiza e normaliza o processo instaurador da autonomia. Vão neste sentido o decreto-lei nº 115/98, de 4 de Maio e, dez anos mais tarde, o decreto-lei nº 75/2008, de 22 de Abril, que o actualiza e revoga. Com estes normativos temos a “autonomia decretada” (Barroso). Falta, contudo, construí-la. É que, como Guilherme de Oliveira Martins sintetiza (2006: 49) “dotar as escolas de uma autonomia autêntica significa contribuir para que a liderança, o projecto educativo, a comunidade escolar e a qualidade se afirmem como indutores de melhores aprendizagens, de melhor desenvolvimento pessoal e social e de mais coesão”. Com efeito, “dotar as escolas de uma autonomia autêntica” supõe que é igualmente possível uma autonomia não autêntica. Ora, esta dupla possibilidade configura um plano de autonomia que João Barroso designa como “autonomia decretada” (o plano “da definição política e do ordenamento jurídico e administrativo sobre as atribuições, competências e modos de governo das escolas” (2006: 23). É a “dotação” da autonomia das escolas por parte da tutela e corresponde, em larga medida à descentralização. Configura igualmente o plano que Barroso chama de “autonomia construída” (o plano “das dinâmicas sociais que em cada organização e para lá das determinantes político-administrativas produzem formas de regulação autónoma” (Ibidem). É a autonomia “autêntica”.

A difícil autenticidade da autonomia das escolas, sempre amarrada às limitações impostas pelo receio da tutela perder algum poder, por pequeno que seja, assemelha-se à história daquela criança que, de mochila às costas, vai andando à volta do bairro onde vive com os pais sem nunca atravessar a rua. O polícia, intrigado com o estranho comportamento da criança, aproxima-se e pergunta-lhe o que se passa. A criança com ar decidido esclarece: “sabe, senhor guarda, eu fugi de casa mas o meu pai proibiu-me de atravessar a rua”. Autónomo na decisão, preso na execução!

Atravessar a rua comporta riscos. Riscos para quem atravessa, riscos para quem, podendo impedir, permite tal travessia. Riscos que, na escola, é necessário e desejável correr se se quiser escapar à monótona rotina da estabilidade cimentada em normativos desejosos de tudo organizar e normalizar, típicos da racionalidade burocrática, receosos da inovação e incapazes de responder adequada e oportunamente ao imprevisto e à mudança. Neste sentido, assumir riscos implica o reconhecimento dos limites próprios e circunstanciais em que se desenham objectivos e projectos, a afirmação do desejo de superação desses limites e a crença em que se é capaz de consegui-lo. Implica, igualmente, que a tutela confie na capacidade mobilizadora das escolas com vista à consecução das finalidades e objectivos que, no dizer de Barroso (idem: 44) compete à escola pública salvaguardar: “o pleno direito à educação e o acesso a uma cultura comum, para todas as crianças e jovens, em condições de equidade, de igualdade de oportunidades e de justiça social”.

É na salvaguarda destes propósitos que se joga o equilíbrio necessário e desejável entre o Estado, que identifica, promove e tutela a “cultura comum” e as “condições de equidade, de igualdade de oportunidades e de justiça social” e as escolas que operacionalizam esses princípios e desígnios no contexto e circunstâncias em que a educação se desenvolve.

A autonomia das escolas constrói-se, pois, na inter-relação entre os sujeitos, as entidades e organismos envolvidos no processo educacional, que se orienta para a promoção da cidadania, que se faz no crescimento pessoal, mental e social daqueles que são a sua razão de ser: os alunos. A eles se destina a escola. Mas não são eles quem a define, como não são eles os autores da sua própria formação, nem são eles a determinar os princípios, as finalidades, os níveis e os saberes que suportam a sua formação e crescimento pleno.

Os alunos, crianças e jovens, não nascem crescidos. Fazem-se no confronto, simultaneamente mimético, referencial, reverencial e rebelde, com os adultos, que lhes servem de modelo -uns- e/ou de anti-modelo -outros. De uma forma ou de outra, é com eles e/ou contra eles que as crianças e jovens adolescentes se formam. Daí esta dificuldade essencial da educação: como conciliar a autonomia e liberdade necessárias à descoberta, como condição fundamental da aprendizagem e do crescimento pleno, equilibrado e harmonioso, com a autoridade, indispensável ao equilíbrio social e, acima de tudo, à afirmação de saberes e valores que nos identificam como cultura, nação ou civilização?

Do mesmo modo que não é a criança a escolher o remédio (“pharmakon”) com que tratar a gripe, nem é ela quem decide se deve ou não tomá-lo, também não lhe compete escolher o que deve aprender e/ou se deve ou não aprendê-lo. Não lhe compete, pois, escolher o “pharmakon” para a alma (Platão, Fedro). São os adultos quem escolhe e decide o que ensinar e o que aprender. Compete, pois, aos adultos transmitir os saberes e valores, reconhecidos essenciais ao nosso percurso colectivo, social e humano. São as crianças e adolescentes quem aprende os saberes e valores indispensáveis ao seu crescimento até à adultez. Chegados aqui serão eles a ensinar e a transmitir saberes e valores às crianças e adolescentes que serão adultos, que transmitirão..., que aprenderão... que transmitirão... que aprenderão...

Bibliografia referenciada

AAVV 2006 A autonomia das escolas, Lisboa, F. C. Gulbenkian
BARROSO, João (2006) “A autonomia das escolas: retórica, instrumento e modo de regulação da acção política”, in AAVV (2006) A autonomia das escolas, Lisboa, F.C.Gulbenkian, pp 23-48
BARROSO, João (2004) “A autonomia das escolas: uma ficção necessária” in Revista Portuguesa de Educação, 2004, 17(2), pp 49-83
CARVALHO, Adalberto (1994) Utopia e educação, Porto, Porto Ed.
CARVALHO, Adalberto et alt (1993) A construção do projecto de escola, Porto, Porto ed
CARVALHO, Rómulo (1986) História do Ensino em Portugal, Lisboa, F. C. Gulbenkian,
DAMAS, José A (1997) A Educação como comunicação normativa, Penafiel, ISPP
GOMES, Joaquim F. (1984) Estudos de História e de Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina
LIMA, Licínio C. (1992) A escola como organização e a participação na
organização escolar, Braga, Un. Minho,
STEINER, G., LADJALI, C (2004) Elogio da Transmissão, Lisboa, D. Quixote
TORGAL, Luis R. (1993) "A instrução Pública" in História de Portugal, Quinto Volume, 609-652, Lisboa, Círculo de Leitores

Regresso à escola

Porque está em análise o PEE da escola onde estou a ensinar, porque suponho que outras escolas estejam a fazer o mesmo e porque confio na profiquidade da discussão reflexiva e comunicacional, pareceu-me valer a pena publicar um texto que escrevi como ponto de partida para a reflexão numa aula de uma disciplina que me cabia dinamizar. A disciplina era “Projectos Educativos”, o tema geral que lhe quis imprimir era “O Projecto entre a Tradição e a Utopia”. O título do texto é “A autonomia e o projecto sob o signo da diferença”.

Apresento-o dividido em três partes:

1. Autonomia da escola
2. Ensinar e aprender
3. Projecto e diferença.

Para melhor identificação das referências bibliográficas apresentarei no fim de cada parte a bibliografia total referenciada e só a referenciada. Como sempre, a lista bibliográfica dos documentos que escrevo limita-se àquela que é referenciada no texto. Ficam de fora todos os livros, artigos, filmes, viagens, encontros, conversas, discos, alunos, professores que me ajudaram a pensar a educação como a penso e que não sejam referenciados no texto.

Está aberta a discussão.
Sejam bem-vindos!

1970 - 40 anos

Há 40 anos foi After the Gold Rush de Neil Young e Don’t let it bring you down.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Recomendo também

O também justifica-se porque sigo o exemplo de Graza no seu Arroios.
São dois textos que nos atiram contra o espelho da nossa desgraça. E é bom que não desviemos o olhar.

Boa leitura!
Mentiram-nos este tempo todo? de Tacci
Um parlamento rico num país cada vez mais pobre. de Alexandre Castro

Nota: alterei a apresentação por me parecer mais claro assim. Bem sei que  estarão todos a sorrir com o "é óbvio". Pois.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Talvez Poema

26.

Invadiste-me
a alma
com a tua ausência

Cobriste-me
o olhar
com a noite sombria
dos dias obscuros
em que te não via

Habitas-me
o corpo
vazio de gestos
calcando a sombra
dos passos incertos
condenados
num requiem sem remédio.

Dizes-me
ao ouvido
segredos da vida que não viveste
dos sonhos que não inventaste
no tempo da tua ausência

Escuto-te
o olhar
na voz que mora em cada célula
da memória que me percorre
e deixo-me possuir pelos rios de luz
que brotam das noites claras
em que nos abençoávamos
no silêncio sem mácula dos sonhos
que vivíamos

Falas-me
ao ouvido
nas noites de tempestade
em que os fantasmas acordam desesperados
e me atormentam os sonhos
com a tua ausência.

Escuto-te
e sorrio
aninhado no regaço da tua presença.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Le temps des cerises

Tacci lembrou a canção do tempo da Comuna de Paris e se transformou num hino de amor. No tempo das cerejas.